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A Mulher É o Futuro do Homem |
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Escrito por Carlos Ventura
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Quarta, 02 Julho 2008 21:13 |
in revista Natural BeijaFlor 2007 dezembro
"A MULHER É O
FUTURO DO HOMEM" - ARAGON
Este é o último mês de 2007, mas o fim de mais um ano é uma
boa oportunidade para assinalar que também vivemos o fim de uma era, decisivo
quanto ao que se passará nos próximos séculos e radical a todos os níveis
quanto às consequências sociais que desde já acarreta.
O mundo, especialmente a Europa e a América do Norte, tem
sido sacudido de alto a baixo por um terramoto nas suas estruturas sociais,
culturais, profissionais, familiares, políticas, emocionais e afectivas. Este
terramoto consiste no novo papel da mulher na sociedade.
Se eu tivesse que escolher o dado social que mais esteja a
transformar a sociedade contemporânea, eu indicaria este facto. A evolução foi
para mim clara ao presenciar, em cada início de ano lectivo, a apresentação dos
alunos matriculados na licenciatura em Biotecnologia de Produtos Naturais, que
com outros dois colegas fundei e na qual leccionei de 1996 e 2006. Sempre foi
normal os cursos tecnológicos serem frequentados principalmente por homens, e
com aquele aconteceu o mesmo. Mas rapidamente mais mulheres começaram a
inscrever-se e os números se equilibraram, acabando por nos últimos anos não
haver sequer homens inscritos. Este caso é ilustrativo por se passar num curso
de ciências, mas o que se passa em praticamente todos os outros tem tendência
semelhante. Em todos os cursos em que tenho vindo a leccionar, a evolução
tem-se revelado a mesma. Actualmente, o que é normal é a formação, seja ela
prática ou científica, curta ou longa, universitária ou não, por gosto pessoal
ou com objectivos profissionais, ser frequentada por mulheres e só de forma
minoritária ou residual por homens. Este facto está já a introduzir alterações
no mercado de trabalho e na sociedade, mas provocará nas próximas décadas a
inversão de muitos hábitos e realidades dados como adquiridos desde sempre. A
médio prazo, com a inevitável sucessão de gerações, o número de mulheres
qualificadas e bem habilitadas profissional e tecnicamente será enorme e o dos
homens diminuto.
Até hoje, as sociedades foram dirigidas por homens. Isto
deriva ainda de sociedades baseadas na guerra e na força. Com o advento das
Idades dos metais, as primitivas sociedades matriarcais e as deusas maternais e
femininas deram lugar a sociedades guerreiras e a deuses masculinos. A nota
dissonante só apareceu há dois mil anos, com Cristo, a contra-corrente, a
preconizar o amor, o perdão e a paz. Com o cristianismo, o culto mariano repõe
a mulher no centro da religiosidade e recupera nela os valores e as práticas
que para o masculino seriam contra-natura. Ao longo de séculos, o mundo
ocidental viveu na contradição de se basear em valores de amor e paz e, no
entanto, praticar a guerra - a ela recorrendo inclusivamente para impor o
cristianismo.
Até que, após as terríveis lições da II Guerra Mundial, os
povos conseguiram viabilizar a vida social europeia baseando-se em valores
humanistas, possibilitando que nos últimos sessenta anos a Europa banisse a
guerra e as fronteiras e promovesse a paz dentro dela e para outros
continentes.
A paz duradoura, nunca antes experimentada, permitindo a
todo o continente viver e prosperar, permitiu também subalternizar a desde
sempre omnipresente e tutelar casta dos guerreiros/militares e fazer emergir a
sociedade civil e, com ela, as potencialidades de cada indivíduo. A construção,
conduzida por homens, desta Europa em paz foi ao mesmo tempo um acto de
suicídio do poder masculino - porque a paz é o terreno que permite que as
potencialidades de todos se expresse e no qual a mulher possa fazer frutificar
as potencialidades que em sociedade de guerra são reprimidas (isto é particularmente
evidente nas nações árabes e do Médio Oriente).
Todos - homens e mulheres - estamos a viver o fim de uma era
(a do paradigma masculino) e o início de uma outra (a do paradigma feminino) e
esta nossa época actual de indefinição, de fracturas, de incompreensões, de
auto-inconsciência, de aprendizagem e de descoberta própria e do outro é
inevitavelmente dolorosa e traumática.
O que será o mundo com grande percentagem de mulheres em
lugares de comando? o que serão as relações entre os seres humanos em bases
novas de respeito pelas capacidades, especificidades e potencialidades de cada
um - que é também de reinvenção do próprio mundo e da sociedade?
Perante os desafios decisivos que o Planeta enfrentará ao
longo deste e dos próximos séculos, bem precisamos que as novas relações
sociais sejam melhores do que foram no passado. E as relações sociais, cujas
dores de crescimento nos afectam hoje, têm como principal eixo de transformação
a deslocação do centro de gravidade do poder masculino para todos os cidadãos,
com uma cada vez maior preponderância das mulheres.
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