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o Meu Avô, o Infinito e o Meu Livro de Ciências |
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Escrito por Carlos Ventura
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Quarta, 02 Julho 2008 21:03 |
in revista Natural BeijaFlor 2007 outubro
O INFINITO EM NÓS
Eu tinha dez anos e o livro do meu encantamento era o de
Ciências Geográfico-Naturais. Era o mundo a abrir-se: as terras e os mares, as
gentes e as florestas, as madrugadas e os ocasos, as chuvas e os ventos, os
gelos e os estios e acima e à volta de nós os céus e os sóis.
Folheando aquele livro eu passava horas perdidas, nele
encontrando o Planeta e mais Além. O livro começava com o universo. Os
planetas, as constelações, as estrelas, as galáxias, o espaço sideral... o
infinito.
No maravilhamento de todo aquele livro, a minha compreensão
perdia-se no infinito. Como é que algo poderia ser infinito? Tudo teria que ter
um fim. A minha realidade finita, a minha mente que todos os dias verificava
que tudo o que tinha um início tinha um fim, não conseguia conceber o infinito.
Fui falar com o meu avô, velho anarco-sindicalista, maçon,
durante anos preso e deportado político. Ele era o sábio respeitado do prédio e
dos grupos de diferentes gerações que circulavam pela nossa casa, a quem todos
recorriam para se aconselharem e inspirarem. Expus-lhe que achava que aquilo
não era possível. Olhei o céu e disse-lhe: não tem fim? Não pode ser. Lá muito
longe, o céu tem que acabar, tem que haver uma parede, um muro. Tudo acaba...
O meu avô olhou-me. E olhou o céu também. E perguntou-me: sim,
um fim, uma parede - mas o que está para além dessa parede? Numa vertigem,
eu passei para além da parede que eu tinha estabelecido como fim do universo, e
para além dela o universo continuava, a perder de vista; eu mergulhava nessa
imensidão e atingia outro limite, e outro, e outro... Eu atravessava todos os
limites e havia sempre mais espaço, mais espaço, mais espaço... O chão finito e
seguro fugiu-me debaixo dos pés e eu caí na espiral sem princípio nem fim,
suspenso entre o centro do universo e o meu quarto, no qual repousava, aberto
para mim e para o Infinito, o meu livro de Ciências...
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