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Escrito por Carlos Ventura   
Quarta, 02 Julho 2008 17:40
in revista Natural BeijaFlor
2006 setembro

SIDA

Em 1982 eu vivia em Paris e costumava comprar um jornal diário em cujo projecto tinha colaborado nos seus primórdios, uma década antes: Libération. A manchete com que me deparei certo dia anunciava (ainda sem que ninguém o soubesse) uma hecatombe que nos anos seguintes destruiu vidas, certezas, esperanças e hábitos. Titulava o jornal nesse dia: LE CANCER GAY (O CANCRO GAY).

Desde 1981 que eram detectados estranhos casos de mortes (nomeadamente formas raras de pneumonia e sarcoma de Kaposi) que até então só eram comuns em idosos mas que agora atingiam homens jovens. Porque as vítimas eram oriundas das comunidades homossexuais de Nova Iorque e Los Angeles, nesses primeiros anos essa doença misteriosa era, à falta de melhor designação, frequentemente chamada "cancro gay". 

No ano daquela notícia já se levantavam suspeitas de que poderia haver transmissão pelo sangue, ou seja, por transfusões e mãe-feto. As mortes já iam em mais de um milhar só nos Estados Unidos, já que os outros países continuavam alegremente distantes do problema.

Em 1983 cheguei aos Estados Unidos para estudar e lá o debate acerca da SIDA estava ao rubro. Fui a múltiplos seminários, congressos e fóruns. No estágio observei muitos doentes que procuravam o nosso apoio. Nesse ano Rock Hudson, estrela de primeira grandeza do cinema, morre de SIDA e admite-o. A sua amiga Liz Taylor toma como missão divulgar a mensagem: os infectados não podem ser marginalizados, até porque ninguém está completamente a salvo.

A SIDA é um quadro de descalabro do sistema imunológico do indivíduo. Mas, claramente como contraponto à doença, era impressionante a vitalidade da sociedade americana, nomeadamente do seu sector mais atingido - os homossexuais - em criar redes de solidariedade, de informação e de apoio. Perante o alheamento do Governo, a sociedade civil mobilizava-se e agia, tomando em mãos a responsabilidade de emendar as práticas sexuais que favoreceram o aumento vertiginoso dos casos. Os resultados mostraram que o esclarecimento das populações é indispensável, já que ao fim de poucos anos a percentagem de homossexuais entre os infectados começou a descer consistentemente, enquanto a dos toxicodependentes de drogas injectáveis aumentava exponencialmente, pelo completo desleixo e desesperança do seu dia-a-dia.

Os cocktails de medicamentos têm prolongado a esperança de vida dos doentes e melhorado a sua qualidade de vida, apesar dos devastadores efeitos secundários que provocam. Porém, a raiz do problema continua a residir na destruição da capacidade das defesas do organismo. O actual quotidiano da população continua a ser baseado em alimentação que promove a doença e não a saúde, e em hábitos de vida desadaptados das nossas necessidades biológicas. Como estranhar que cada vez mais as nossas defesas sucumbam frente às mais variadas situações?

Os números continuam a aumentar, principalmente em África, onde a situação em vários países está fora de controlo. Nestes vinte cinco anos morreram de SIDA em todo o mundo mais de vinte cinco milhões de seres humanos. Também neste aspecto Portugal está na cauda da Europa, devido ao nosso atávico deixa-andar e facilitismo. As relações próximas com países africanos e com o Brasil (zonas com grande expansão da doença) contribuem para a nossa má situação, mas os portugueses continuam sem proceder com os cuidados devidos na abordagem de novos parceiros sexuais. Não é possível continuar a ter o comportamento que tivemos até há um quarto de século. Ter relações sem preservativo com desconhecidos ou com alguém de quem ignoramos a respectiva história com parceiros sexuais anteriores, é estar a jogar uma roleta russa que pode ser potencialmente mortal - para nós e para outros. É indesculpável sob o ponto de vista social e ético. É também prova de irresponsabilidade e de ignorância.

Nesses congressos sobre a SIDA nos Estados Unidos circulava um slogan lapidar: DO´NT DYE FROM IGNORANCE - NÃO MORRA DE IGNORÂNCIA. Ma em última análise, de forma gritante no caso da SIDA mas (talvez de forma menos evidente) também em muitas outras doenças, a causa por trás das outras causas não será sempre a ignorância?

 

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