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in revista Natural Beija Flor 2005 dezembro SINAIS DOS MEUS TEMPOS Jorge Sampaio, o Presidente que Cumpriu
Há seis anos e três meses viveu-se uma luta no fio da navalha, em que um século e meio de naturologia em Portugal estava sob ameaça de morte. No fim de julho o primeiro governo de António Guterres tinha aprovado a lei do Acto Médico, a qual, a ser aplicada, teria como consequência a ilegalização das práticas das medicinas não convencionais quando praticadas por não médicos. Ou seja, milhares de profissionais ficariam impedidos de exercer. Mas como os médicos, pela sua formação, não estão vocacionados nem preparados para as práticas naturais, estas ficariam condenadas a estiolar, com uma aplicação residual e uma existência clandestina – o que significa que a população deixaria de ter possibilidade de escolha (que apesar de tudo sempre existiu). Esta lei do Acto Médico contrariava a lei de bases da saúde e o direito dos cidadãos à livre escolha do método para se tratarem e do respectivo profissional. Violava também a liberdade de aprender e de exercer profissões existentes na esmagadora maioria dos países do mundo, acrescendo que milhares de profissionais faziam da sua profissão o seu modo de vida desde há anos, sendo inconstitucional que fossem impedidos de continuar a exercê-la. Apesar de todos estes argumentos, a ministra da saúde Maria de Belém apresentou a lei em conselho de ministros, que a aprovou. Na madrugada desta aprovação recebi um telefonema prevenindo-me de que a lei iria ser aprovada e pelas oito da manhã contactei o então presidente da FENAMAN (eu era o vice-presidente), tendo então começando um corrupio de movimentações. Antes de mais precisávamos de conhecer exactamente o texto completo da lei – o que não foi possível de imediato. Complementarmente, convocámos os corpos competentes e os elementos mais influentes da Federação, o que também não foi fácil, já que se estava em época de férias e muitos já não estavam disponíveis. A reunião para organizar o gabinete de crise teve lugar a 3 de agosto nas instalações da Federação, ficando o presidente, João Ribeiro Nunes, a coordenar a acção. Mas a pressão era terrível e passados dias este colega foi acometido por um problema gravíssimo de saúde, ficando entre a vida e a morte. Tomei então o seu posto, coordenando a partir desse dia a luta que teve duas fases distintas: uma até aos princípios de Setembro e outra até ao fim desse mês, altura em que o Presidente da República anunciou o veto à lei.
Agora que o segundo mandato de Jorge Sampaio chega ao fim, é indispensável sublinhar o papel fundamental que este presidente teve no reconhecimento das medicinas não convencionais. O seu veto político ao que tinha sido decidido pelo governo (que, não o esqueçamos, era da sua cor política) foi um acto de enorme coragem. Na verdade, para além de pôr em causa uma decisão governamental muito mediatizada, o presidente teve que enfrentar as maiores pressões do sector da Ordem do Médicos e de várias outras forças do sector da saúde, dentro do qual só os enfermeiros expressaram dúvidas quanto à pertinência da lei. Ao longo de Setembro, o grupo que a partir dos primeiros dias desse mês integrou a luta manteve sempre abertas vias de comunicação com a Presidência da República, dialogando, informando e enviando pareceres e estudos nacionais e estrangeiros, contribuindo de forma construtiva e decisiva para que a decisão final do Presidente fosse ponderada, baseada e justa. O Presidente, por seu lado, teve à sua volta uma equipa competente e responsável, inatacável nomeadamente no que respeita ao conhecimento e interpretação do que está consignado na Constituição, cujo texto era decisivo quanto aos direitos a garantir – e que aquela lei desprotegia. As pressões sobre a Presidência da República não acabaram com o veto, já que os ataques que se lhe seguiram foram do pior que um Presidente da República já sofreu. Um ano depois, o segundo governo de António Guterres, já com outra ministra da saúde (Manuela Arcanjo), repetiu o mesmo ataque político à saúde natural, obtendo a mesma resposta firme do Presidente.
No “verão quente” de 1999 a lei do acto médico foi, contra todos os prognósticos da classe política, parada pela acção conjunta de um grupo de profissionais das medicinas não convencionais, que uniram esforços, competências e vontades para, num processo exemplar, mobilizar sensibilidades diversas do espectro científico, jornalístico e da sociedade em geral. O núcleo duro dessa luta, que reuniu quase quotidianamente, por vezes pela noite fora, em maratonas esgotantes mas compensadoras, foi constituído por: (em ordem alfabética) Augusto Henriques, Carlos Ventura, Deolinda Fernandes, João Faria, José Faro, Mendes Teixeira, Pedro Choy e Ricardo Salvatore. Outros colaboraram de uma ou outra maneira, desenvolvendo trabalho logístico, enviando-nos documentos, pondo-nos em contacto com pessoas e instituições, comparecendo em certas reuniões, etc. Foi principalmente o caso de Borges de Sousa, Carlos Neves, Gerónimo Sardinha, Luz Ventura, Manuel Branco, Raul Oliveira e Regina Calheiros. Mas este trabalho não teria conseguido atingir os seus objectivos sem a firmeza, a coragem e o sentido nacional do Presidente da República. O veto ao acto médico foi o sinal claro (difícil mas libertador) de que a sociedade portuguesa estava pronta para assumir, também aqui, a sua diversidade em liberdade. Esse momento permitiu que, com aparentemente espantosa facilidade, o processo de aprovação de um texto consensual fosse conseguido ser aprovado por unanimidade em 2003. E que o processo de regulamentação prossiga em bom ritmo.
*Naturólogo. Dirige o Instituto Hipócrates de Ensino e Cência (
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