Eventos

Entrada Artigos História Santinho Cunha (1932-2009)
Santinho Cunha (1932-2009) PDF Versão para impressão Enviar por E-mail
Avaliação: / 5
FracoBom 
Escrito por Carlos Ventura   
Sábado, 02 Janeiro 2010 11:20

in revista Natural, 2010 jan

Santinho Cunha (1932-2009)

Carlos Campos Ventura*

No dia primeiro de Dezembro de 2009 faleceu o Professor Doutor Armando Santinho Cunha. Foi um querido amigo e um mestre com quem aprendi muito. Para mim pessoalmente, portanto, é muito penoso o seu desaparecimento. Mas para a afirmação das medicinas não convencionais em Portugal ele foi, discretamente como era seu timbre, de uma enorme importância: abriu-nos portas que de outra forma nunca se teriam aberto, estabeleceu-nos contactos com personalidades e instituições a que de outra forma nunca teríamos tido acesso, ajudou-nos com o seu incentivo, iluminou-nos com o seu saber e com a sua sabedoria...

Conheci-o há cerca de vinte anos e desde que fomos apresentados criámos uma grande empatia, que foi evoluindo para amizade e colaboração em variadíssimas iniciativas. O Professor era um homem de tertúlias que, cada uma, reunia, em dias certos e locais escolhidos, pessoas de áreas diferentes do saber ou de intervenção pública. Acompanhei-o assim ao longo de mais de uma dúzia de anos por diversas tertúlias que se reuniram próximo da sua residência de quase toda a vida, na rua do Conde de Redondo. Outra funcionou ao pé do metro da Baixa-Chiado e (a última) ao pé da igreja dos Anjos. Na Padaria do Povo criámos uma outra tertúlia, que deu origem a um grupo que acabou por integrar os corpos sociais desta cooperativa centenária. Com ele e mais meia dezena de companheiros fundei a secção de História da Medicina da Sociedade de Geografia, em cujo restaurante também funcionava mais uma tertúlia. Em várias destas reuniões aconteciam debates e palestras que, é preciso assinalar aqui, foram um importante altifalante para a medicina natural. Na faculdade de Medicina Dentária, de que foi fundador, funcionaram sob sua iniciativa palestras sobre temas científicos e numa rádio de Almada dinamizou um programa com entrevistas sobre temas da actualidade Em todas estas tertúlias e instituições eu intervim, pronunciei palestras e apresentei trabalhos acerca das medicinas naturais, da sua história, do seu corpo teórico e das suas matérias, promovendo e explicando as medicinas não convencionais. Sempre o Professor Santinho Cunha me apoiou, incentivou e defendeu. E é preciso lembrar que isto se passou não só depois mas ainda antes de haver a lei de 2003, quando portanto era muito mais inóspito a defesa pública destas teses. Esta solidariedade desassombrada e pública trouxe-lhe alguns dissabores com a Ordem dos Médicos, o que não o preocupava excessivamente, até porque o seu estatuto o colocava muito acima dessas pressões.

Ele esteve na génese, comigo e com o Homeopata/Naturólogo e amigo António Novaes, da Escola Superior das Ciências Naturais e Homeopáticas. O Professor encarregou-se de coordenar as disciplinas biomédicas, agregando a si um escol de professores eminentes, que leccionavam na Faculdade de Medicina (ele próprio era professor na Faculdade de Medicina), na Faculdade de Medicina Dentária (de que ele foi fundador), no ISPA, na Faculdade de Motricidade Humana, etc. Era o caso de, entre outros, Judite Silva, Moita Flores, Cecília Casaca e Manuel Sérgio. O seu contributo foi decisivo para que aquela escola fosse desde o seu início uma instituição radicalmente nova e um projecto com uma qualidade ímpar no panorama da saúde natural. Ele foi nosso professor de Anatomia, de Fisio-Patologia, de Análises Clínicas (ele também era do Colégio de Medicina Patológica da Ordem dos Médicos e dirigiu laboratórios de análises clínicas) e de Deontologia. O Professor Santinho Cunha era de uma enorme exigência quanto à competência técnica e quanto à estatura moral e cívica dos seus parceiros e portanto quando, no final de 1999, eu fui afastado (ilegalmente, como se veio a provar em tribunal) de Director e professor da Escola das Ciências Naturais e Homeopáticas, o Professor (e aliás praticamente todos os professores que tinham sido até então a garantia de qualidade da escola) recusou-se a continuar nessa escola, que iniciou rapidamente o declínio a todos os níveis para o seu fim inexorável e desonroso.    

O Professor Santinho Cunha publicou grande número de obras, a maior parte delas acerca de antropologia e medicina legal, de que foi uma autoridade em Portugal, sendo chamado com frequência de várias partes do mundo para ir emitir pareceres e relatórios.

A par das lutas que travámos juntos e do convívio fraterno, é gratificante a memória de como gostávamos de passear pela nossa cidade. Ambos nascemos em Lisboa, que conhecemos profundamente. Ambos gostando de andar, era sempre um prazer as vezes que deambulávamos por estas ruas. O Professor falava de tudo - era um conversador brilhante, e o seu saber enciclopédico derramava-se fascinantemente sobre quem o ouvia. Íamos andando e o Professor (uns bons anos mais velho que eu), às vezes já um pouco cansado, apoiava-se no meu braço e discorria sobre os mais diversos temas, contava histórias, nomeadamente sobre os meandros da História ou sobre pessoas e personalidades com quem privara e privava e sobre projectos em que nos envolvíamos. Às vezes sentávamo-nos num café, ele abria a inseparável pasta e tirava de lá ossos que estava a estudar, oriundos das catacumbas de algum convento ou de algum caso (trabalhou muitos anos no Instituto de Medicina Legal) ou que tinha separado para uma aula. Explicava-me entusiasmado o que eram aqueles ossos, enquanto as pessoas à volta se afastavam discretamente e com olhares esbugalhados.   

O Professor Santinho Cunha deixa, na alma dos que o acompanharam ao longo dos anos, um vazio impossível de preencher. Este artigo é a homenagem sentida pelo apoio incomparável que ele prestou (sem nada esperar ou pedir em troca, até porque não precisava) à medicina natural no nosso país - só porque acreditava que isso era justo e cientificamente sustentável. E porque, eu sei bem, e neste momento falo consigo directamente, meu Caro Professor, porque sempre foi um homem de amizades, de companheirismo e de solidariedade.

Director do Instituto Hipócrates de Ensino e Ciência www.institutohipocrates.pt
 

Subscreva Newsletter

Medicinas Não Convencionais


Receber em HTML?