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As Plantas Medicinais, seu uso, seus utentes e seus profissionais PDF Versão para impressão Enviar por E-mail
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Escrito por Carlos Ventura   
Sábado, 01 Dezembro 2012 21:01

in revista Segredo da Terra, 2012 dez

AS PLANTAS MEDICINAIS, SEU USO, SEUS UTENTES E SEUS PROFISSIONAIS

 

A fitoterapia é indiscutivelmente o mais antigo sistema de tratamento do mundo e, sem exceção, o mais utilizado por todos os povos. Esta utilização era baseada no conhecimento das plantas curativas indígenas que os rodeavam, das suas características e das suas aplicações.

 

De facto, o uso quase instintivo das plantas com fins curativos, remonta a muito antes de existir o que hoje conhecemos como Europa, subsistindo desde os alvores da história da humanidade, e está bem documentado em povos como os indianos, chineses, egípcios, gregos, romanos, etc.

Em relação à História da fitoterapia europeia, faltar-nos-ia o tempo para descrever todos os grandes mestres e seus feitos, que marcaram de forma indelével o seu desenvolvimento. Mas não podemos, no entanto, deixar de referir Hipócrates (460-377 a. C.) - considerado “o pai da medicina”, com a publicação da Corpus Hippocraticum, consagrando a existência da terapia com os vegetais.

Podemos dizer que a Fitoterapia Ocidental se baseia essencialmente nas tradições Europeias herdadas dos povos que deram origem à Europa atual. A influência da tradição Americana na fitoterapia europeia é também visível pelo uso frequente de muitas das plantas daquela região quer na Fitoterapia Ocidental quer na Lusitana como é o caso da Echinacea (Echinacea angustifolia), o Cajueiro (Anacardium occidental), os Piripiris e os Pimentos (Capsicum sps.).

Por outro lado, podemos dizer que Portugal também marcou de forma indelével a Fitoterapia Europeia. De facto os Descobrimentos Portugueses e a Expansão levaram a contactos com outros Povos, Culturas e Floras, o que promoveu um incremento da comunicação e transporte entre os povos como nunca tinha acontecido até ao Séc. XV. Os Portugueses como pioneiros tornaram as Plantas acessíveis a todo o mundo, em especial as oriundas da Índia, China, Brasil e África. A medicina Europeia deu um enorme salto qualitativo com os conhecimentos transmitidos pelos nossos exploradores e cientistas dos quais podemos destacar entre todos Garcia de Orta.


A partir do início da sintetização de substâncias de estrutura química definida e de ação farmacológica deu-se um declínio da Fitoterapia, com a diminuição radical da prescrição médica de produtos vegetais. As plantas medicinais foram praticamente esquecidas pelas elites, cedendo lugar às substâncias sintéticas. Tal fase percorre principalmente o início da década de 50 até o final dos anos 70. Nessa altura os grandes centros de pesquisas em todo mundo passaram a direcionar com vivo entusiasmo, vultosos recursos, tanto governamentais como de iniciativa privada, para a pesquisa das propriedades curativas das plantas medicinais. Multiplicaram-se então na imprensa informações sobre as vantagens da farmacobotânica, sendo tal movimento acompanhado pelo surgimento de um número considerável de estabelecimentos comerciais especializados em plantas.

 

De facto, em anos recentes, temos assistido ao renascer do interesse pela fitoterapia. Isto deve-se, em muito, por um lado aos progressos na investigação e ao estudo dos princípios ativos das plantas, e por outro lado aos efeitos secundários indesejáveis, por vezes até mesmo nefastos, da maioria dos medicamentos químicos, utilizados na medicina convencional, que incitam hoje em dia à prudência.

Não há dúvidas de que o uso das plantas medicinais, nos dias de hoje, é cada vez mais científico e menos empírico. Podemos afirmar que a fitoterapia dos nossos dias deixou de se fundamentar unicamente no uso tradicional, estando cada vez mais apoiada nos aspetos da qualidade, da eficácia e da segurança.

Grande parte dos medicamentos utilizados hoje em dia, alguns bem conhecidos como a aspirina (que é feita a partir de moléculas idênticas a substâncias extraídas do salgueiro e do ulmeiro), a morfina (a partir de substâncias extraídas das sementes de ópio) e mesmo as pílulas anticoncecionais (a partir de moléculas idênticas a substâncias extraídas de inhame selvagem), começaram por ter inspiração derivada de plantas.

Entretanto, ao contrário do medicamento alopático, que extrai uma parte isolada da planta, ou seja, o seu princípio ativo, sintetizando-o quimicamente, a fitoterapia utiliza a planta em si (toda ou parte dela).

Este é um dos aspetos incontornáveis que distingue a fitoterapia. A planta medicinal, para além do, ou dos constituintes ativos, contém outros compostos que podem influenciar a sua ação. Na realidade, tais compostos, frequentemente, protegem os constituintes ativos de alterações, sejam estas por oxidação, hidrólise, etc., promovendo mesmo uma melhor absorção pelo organismo, ao auxiliarem a passagem de membranas, ou ao inibirem sistemas enzimáticos. Daí que a ação da planta, ou de um extrato, muitas vezes revele uma melhor atividade do que a mesma quantidade do constituinte ativo isolado. Se pensarmos no exemplo da couve, percebemos claramente a diferença entre usar a planta na íntegra e apenas um dos seus constituintes isolados. Nunca se ouviu falar de que a couve tenha provocado a morte de alguém, mas o mesmo já não se pode dizer de um dos seus princípios ativos, o Arsénio (As), que isolado é letal para o ser humano.

Falta-nos ainda definir Fitoterapia. A palavra Fitoterapia deriva dos termos gregos “Phyton” que significa planta vegetal e “Therapia”, terapia ou tratamento. É, portanto, caracterizada pelo uso terapêutico de plantas medicinais.

Um outro aspeto em que a fitoterapia se distingue, é por agir em profundidade, sem agredir o organismo, estimulando as defesas em vez de se sobrepor a elas. Sempre considerando que se deve abolir a causa e não os sintomas, uma vez que estes são sinais de aviso de que algo corre mal no organismo. O resultado é uma ação eficaz, duradoura e sobretudo desprovida de efeitos secundários nefastos.

Estes factos salientam a importância de se usar a fitoterapia de uma forma responsável e séria. É comum entre fitoterapeutas ouvir-se que “não existem venenos, o que existem são doses”. Pelo que, para que se possa usufruir de todos os benefícios que as plantas medicinais nos propõem, é fundamental que os tratamentos, que as têm como base, sejam orientados por um Fitoterapeuta competente e responsável, e que as dosagens recomendadas sejam respeitadas. Desta forma, assegura-se o uso seguro e eficaz das plantas medicinais.

O Fitoterapeuta pode optar por utilizar plantas frescas, secas, extratos simples ou extratos estandardizados.

 

As plantas medicinais preparadas por infusão, decocção ou tintura alcoólica, a partir das partes mais apropriadas de cada planta (sejam folhas, raízes ou flores por exemplo), tendem por norma a ser seguras, desde que ingeridas nas doses terapêuticas indicadas.

Na utilização responsável da fitoterapia, são sempre levadas em consideração ainda as contraindicações específicas para o uso de uma planta, perante a existência de determinadas perturbações de saúde pré-estabelecidas, ou condições como a gravidez, aleitação e idade do doente em questão. As dosagens são sempre ajustadas a cada situação específica. Além do que, tem-se sempre presente a elevada concentração dos óleos essenciais, evitando, na maioria das vezes, o seu uso interno, e tendo o cuidado de os diluir antes de aplicação tópica, de forma a evitar possíveis dermatites de contacto.

Mas quais as bases filosóficas e etiológicas da Fitoterapia Naturopática Europeia?

A Fitoterapia assenta nos princípios filosóficos da Medicina Hipocrática ou Naturopática e da Medicina Tradicional, as quais incorporam a compreensão filosófica da saúde, da doença, do processo de cura e a interação desses fatores com o indivíduo (sintomas, história pessoal, aspetos físicos, mentais, emocionais e espirituais, envolvimento sociocultural e ocupacional).

 

A Fitoterapia é caracterizada por uma abordagem centrada na pessoa, onde o utente em vez da doença é o centro da atenção do Fitoterapeuta. Os antecedentes da condição apresentada são avaliados através da história do caso, que assenta na história familiar, na história pessoal de saúde e nas escolhas de estilo de vida do próprio utente, e a terapia é dirigida para as causas, e não apenas para os sintomas atuais. O Fitoterapeuta utiliza a informação obtida durante a anamnese para avaliar a constituição e vitalidade do utente. A escolha das plantas na prescrição baseia-se nesta avaliação, que é frequentemente seguido de um aconselhamento adequado sobre o estilo de vida, a alimentação específica, e o terapeuta procura sempre criar um ambiente positivo e de confiança na sua relação terapêutica. De notar que esta área de saúde sempre pugnou pelo equilíbrio do ser humano, mas também do todo ecológico, daí desde sempre ter pugnado pela agricultura biológica como fonte de alimentos mais saudáveis, nutritivos e equilibrados, algo que é ainda mais incontornável nas plantas medicinais.

 

É recente a existência de uma área profissional de Fitoterapia no nosso país, porque a Fitoterapia não era, na Europa continental, uma área separada da Naturopatia.

A Lei 45/2003 de Enquadramento Base das Terapêuticas não Convencionais abriu as portas a uma nova era do saber e prática desta profissão em Portugal.
Agora que estão lançados os alicerces para ordenamento da prática e do usufruto de conhecimentos acumulados ao longo de séculos, é importante assegurar o pleno reconhecimento profissional da atividade, tanto público como oficial.

Do que foi exposto, fica portanto claro que a existência de Fitoterapeutas no nosso país é extremamente recente. Com efeito, foi apenas em 2003 que a Escola Europeia de Saúde Natural lecionou o primeiro curso em Fitoterapia. Logo que o Instituto Hipócrates de Ensino e Ciência/IHEC foi criado, em 2004, aquela escola foi extinta e os seus alunos e cursos passaram para o IHEC.

Assumidamente, no entanto, agora existe em Portugal a profissão de Fitoterapeuta! Mas uma profissão com paradigma não convencional, não farmacêutico nem médico. A Fitoterapia da Lei 45/2003 das Terapêuticas Não Convencionais assenta os seus pilares em Mestres como Lyon de Castro, Colucci e Marchesseau – ou seja, mestres naturopatas que inevitavelmente integravam a Fitoterapia no seu saber e na sua prática clínica.

Carlos Campos Ventura e Filomena Pires

(Presidente e Secretária da Associação Nacional dos Fitoterapeutas).

Mais informações em www.institutohipocrates.pt

 

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