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Escrito por Miguel Boieiro   
Quarta, 29 Setembro 2010 10:12

Medronheiro

                                                                                                                                                                                                                                                                                     por Miguel Boieiro
A tia Alzira herdou da casa paterna um velho alambique. Todos os anos ela ia às encostas do monte colher os medronhos que ficavam a fermentar e depois seguiam para o alambique onde se destilava a famosa aguardente. A tia Alzira não bebe, apenas cheira, mas ficava felicíssima por oferecer a cada familiar uma garrafa de aguardente de medronho, fabricada artesanalmente pelas suas experientes mãos. Agora os achaques e a velhice não lhe permitem mais efectuar esse trabalho que, para ela, era uma espécie de missão. A verdade é que na chamada Zona do Pinhal (Centro de Portugal) os medronheiros são espontâneos, resistiram bem aos incêndios, mas ninguém se dá ao trabalho de apanhar os medronhos que, em catadupa, se esborracham no chão.

Quem já foi a Madrid, decerto se admirou com o emblema heráldico da cidade, constituído por uma ursa com as patas dianteiras apoiadas num medronheiro. Coisa curiosa, pois parece que os ursos se extinguiram na região por volta do século XI e os medronheiros não são ali espontâneos. Tecem-se várias conjecturas, mas ainda hoje não se conhece verdadeiramente o significado do escudo da faustosa cidade.

Postos estes dois parágrafos introdutórios, vamos então analisar as particularidades do Arbutus unedo L, arbusto rústico de crescimento lento, por vezes árvore, da família das ericáceas, originário dos litorais da Europa meridional, chegando a atingir as costas da Irlanda, porém aí com escassa frutificação.

O medronheiro possui um sistema radical potente, formando uma cepa grossa. O tronco tem casca pardo-avermelhada, gretada e escamosa. As suas folhas são persistentes, alternas, lanceoladas, dentadas, de verde-escuro lustroso, um pouco coriáceas e de pecíolo curto. As flores agrupam-se em ramalhetes terminais de cor branca levemente rosada em forma de campânulas viradas para baixo. Os frutos são bagas granulosas cilíndricas, comestíveis, algo verrugosas, de 20 a 25 mm de diâmetro, começando por ser verdes, depois amarelos, depois alaranjados e finalmente vermelhos quando maduros.

Os medronhos contêm açúcares, ácidos orgânicos, pectinas, taninos e vitamina C. São adstringentes quando não se encontram amadurecidos. Têm a particularidade de alcoolizar muito rapidamente, pelo que se aconselha a não ingerir grandes quantidades de repente. Parece, inclusive, que o termo latino unedo significa que convém comermos um medronho de cada vez para não ficarmos ébrios.

O medronheiro é muito apreciado como arbusto ornamental pois chega a ostentar, em simultâneo, os frutos e as flores, sendo estas destinadas à frutificação do ano seguinte. A madeira é densa, constituindo um bom combustível (carvão) e matéria-prima para ferramentas torneadas. Da aptidão dos frutos para confeccionar aguardente já falámos, mas importa referir que também servem para fazer compotas e geleias.

As folhas do medronheiro são diuréticas, anti-sépticas das vias urinárias, sendo aplicadas para aliviar cistites, cálculos renais e disenterias.

Transcrevo, com a devida vénia, algumas mezinhas do curioso livro "Les Plantes Médicinales du Maroc" que adquiri, há alguns anos, em Marraquexe:

Diarreia - Decocção de 40 g das folhas num litro de água, ferver 10 minutos, filtrar, açucarar e beber. Este tratamento deve repartir-se por dois dias.

Cálculos urinários - Infusão de 20 g das folhas para um litro de água, deixando repousar 10 minutos. Beber uma chávena três vezes por dia em curas de três semanas que devem ser efectuadas várias vezes ao longo do ano.

Arteriosclerose - Maceração de 40 g das raízes secas cortadas em pequenos pedaços, num litro de água. Ferver em lume brando até que se evaporem dois terços do líquido. Deixar repousar e só filtrar no momento de beber. Deve-se tomar uma chávena em jejum durante três dias.

Quanto à famosa aguardente de medronho, bebida tóxica, como de resto todas as aguardentes, façam como eu. Aspirem apenas o seu delicado aroma frutado que faz crescer-água-na-boca e activa as papilas gustativas. Vejam como se acelera de imediato o processo da digestão. Eis, só por si, um bom aperitivo e um óptimo digestivo!
 

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