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Escrito por Miguel Boieiro   
Domingo, 30 Maio 2010 16:10

Erva-língua

Tive a grata oportunidade de servir de guia a um grupo numeroso de estudantes de fitoterapia do Instituto Hipócrates, sabiamente orientado pelos meus amigos professores João Ribeiro Nunes e Carlos Campos Ventura. A ideia era identificar plantas selvagens do litoral estuarino que predominam no interland alcochetano. Começávamos nos terrenos da antiga fábrica do Alumínio (Alto dos Moinhos), passando pelo Forno da Cal, Hortas, Sapal das Hortas, Pinhal das Areias e Freeport (que tem muitas curiosidades para mostrar, mesmo de carácter botânico).

Infelizmente o tempo fez-nos uma negaça. Tão primaveril que estava antes, desabou a chover fortemente naquele domingo de Abril. Mesmo assim, o passeio efectuou-se e a lição trouxe proveitos. Apenas anulámos o percurso pelo sapal que iria até ao rio das Enguias que, sem dúvida, constitui um santuário importante da flora halófita, ou seja, das plantas que se desenvolvem em terrenos salgadiços.

Não vou descrever as plantas que fomos encontrando à medida que caminhávamos. Estavam verdadeiramente no auge da sua actividade sexual após um inverno chuvoso e uma primavera que já tinha despontado quente e prometedora. Os prados eram uma miscelânea de espécies floridas com polinizações intensas, efectuadas com a ajuda dos insectos, dos pássaros e do vento. É sabido que cada ser tem a sua estratégia própria para prolongar a espécie e assim continuar o milagre da criação. No reino da botânica, alguns processos são deveras fascinantes. É concretamente o caso das orquidáceas, as quais se encontram no topo do aperfeiçoamento da flora.

Trata-se duma família muito complexa que nos causa sempre admiração, quer pela beleza das flores, quer pela sofisticação do seu desenvolvimento. Devo confessar que as orquídeas não são a minha especialidade e delas minguam-me conhecimentos. Daí talvez o fascínio que me desperta e que se integra na atracção pelo desconhecido, característica muito própria do curioso, que me prezo de ser.

Toda esta conversa preliminar serve para revelar que, no nosso percurso, encontrámos vários exemplares duma determinada orquídea. Refiro-me à Serapias lingua L., também conhecida por erva-língua ou serapião. É uma pequena erva vivaz, glabra e tuberosa com caule florífero que quase não se distingue no meio da "floresta" de ervas, pois talvez não atinja os 30 cm de altura. As folhas são caulinares e dispostas helicoidalmente. Como podemos observar na generalidade das orquídeas, as folhas são lanceoladas e lineares e quase não se notam. A inflorescência apresenta-se erecta com flores púrpuras ou violáceas com tons exteriores acinzentados. A particularidade desta flor é que o labelo, largo e comprido tem a forma de uma língua. Essa língua conduz a um pequeno orifício com uma calosidade em forma de grão de café onde os insectos vão fazer a sua pseudo cópula, pensando que estão a encontrar a fêmea. Vejam só a malandrice das orquídeas!

As "serapias" que nós fomos detectando, quer no Alto dos Moinhos, quer ao pé da antiga nora do Forno da Cal estavam quase sempre agrupadas, formando colónias no meio do ervedo.

Dizem os compêndios que esta orquídea gosta de solos siliciosos e pouco azotados e zonas quentes, mas para florir não prescinde da humidade. Tal e qual como nos foi dado observar.

Bem, agora digam lá para que serve a "Serapias lingua"? Serve para aprender História e Latim. "Serapias" vem do nome de um deus egípcio que talvez fosse da simpatia do Lineu. "Lingua", sem acento, porque os romanos não o usavam, está mesmo a explicar que a planta tem língua comprida.

Então e as propriedades medicinais? Pois, não foram ainda determinadas.

Então para que presta, afinal, esta erva selvagem? Presta para observar, para reflectir sobre a natureza, para dilatar os sentidos e para redigir... croniquetas.

Boa Primavera!

 

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