|
A Propósito da Depuralina |
|
|
|
|
Escrito por Carlos Ventura
|
|
Quarta, 02 Julho 2008 21:42 |
in revista Natural BeijaFlor 2008 maio
A PROPÓSITO DA DEPURALINA
É impossível não reflectir, levantar questões e tirar lições
acerca do "caso Depuralina", do qual começo por muito resumidamente recordar o
que aconteceu, passando a reflectir acerca de questões que este caso implica.
I- desde o início de 2008, este produto promoveu um
lançamento mediático intenso, bem planeado e com um fulgurante sucesso de
vendas.
II- no início de Abril, a Direcção Geral de Saúde denunciou
para a comunicação social a notícia de que haveria cinco indivíduos com
complicações hospitalares devido à toma de Depuralina. Nos dias seguintes, este
número foi revisto para três e acabou fixado em oito.
III- passando por cima da questão de possíveis guerras
comerciais e de lóbis, eventualmente desencadeadas pelas farmácias, pelo
Infarmed ou por outras forças, interessa fazer algumas observações que podem
ajudar a melhorar a nossa visão crítica sobre os produtos naturais e do próprio
sector.
IV- em primeiro lugar, sublinhemos que produtos como a
Depuralina têm a designação legal de "suplementos alimentares". Esta designação
sublinha a referência que obrigatoriamente tem que figurar nos rótulos: "os suplementos
alimentares não devem ser utilizados como substitutos de um regime alimentar
variado". Esta informação ao consumidor faz todo o sentido, até porque cada vez
mais esta sociedade procura soluções rápidas mas não sustentadas. Há assim a
tentação de "comprar" saúde em vez de construir saúde. O pilar quotidiano
central da saúde natural sempre foi a alimentação. É verdade que é hoje
evidente para todos que a alimentação moderna é desequilibradíssima, recheada
simultaneamente de excessos e de carências. Por isso é compreensível que muita
gente adopte a toma regular ou pontual de suplementos alimentares. Estes podem
incluir produtos tão variados como vitaminas, minerais, enzimas, fibras,
extractos de plantas medicinais, complementos para desportistas, etc. Mas essa
toma não pode ser desculpa nem álibi para que a dieta quotidiana seja descurada
e persistam padrões desequilibrados e excessivos.
V- Não pode ser ocultado que qualquer substância, seja ela
qual for, pode envolver algum tipo de risco, e tanto o consumidor, como o
profissional e as empresas têm que estar conscientes disso. É claro que de
substância para substância, o risco varia e pode ser alto ou insignificante e é
obvio que comparar os riscos entre medicamentos químicos e suplementos
alimentares é demagógico - mas, também aqui, é preciso ver caso a caso. O
chavão de que os produtos naturais, se não fazem bem também não fazem mal é,
além de falso, revelador de ignorância do que são, de como actuam e da imensa
variedade dos produtos naturais.
VI- o consumidor procura cada vez mais informar-se, e isso é
muito positivo, tendo como consequência a conquista da sua autonomia na gestão
da sua saúde. Mas esta maior capacidade não deve fazer esquecer que o
profissional de saúde tem um papel incontornável no apoio e orientação ao
consumidor que, se desistir de recorrer ao profissional, pode ficar
desprotegido em casos mais subtis e que exijam mais conhecimentos.
VII- é verdade que a
capacidade técnica e deontológica dos profissionais de saúde natural continua
a ser muito desigual. Até por
isso, a formação de qualidade tem que ser implementada. Esta é uma
luta em que me tenho
empenhado desde há duas décadas e por isso me mantenho a coordenar cursos nesta
área. Porque há muito estou convicto que sem formação de qualidade, tanto na
profissão técnica (para lojas de produtos naturais) como na científica
(nomeadamente naturopatia e fitoterapia) não pode haver desenvolvimento
sustentado do sector nem bom serviço às populações. Quanto mais qualidade os
profissionais tiverem, mais a população se sentirá segura e disponível para
recorrer a eles. E talvez assim ocorram menos casos de mau uso de produtos
naturais.
|