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Saúde Natural e Agricultura Biológica PDF Versão para impressão Enviar por E-mail
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Escrito por Carlos Ventura   
Terça, 04 Outubro 2011 20:00

in revista O Segredo da Terra, 2011 out

SAÚDE NATURAL E AGRICULTURA BIOLÓGICA

Carlos Campos Ventura*

É impossível olhar para a História da agricultura biológica sem nela nos apercebermos da evidência da presença de organizações e activistas da saúde natural, desde os seus primórdios e na sua dinamização. A que se deve esta realidade? Vamos ver que personalidades e instituições de saúde natural intervieram na História da agricultura biológica em Portugal. Mas para percebermos as causas desta coincidência, veremos também que na base dela estão similitudes filosóficas e metodológicas que se encontram nos dois movimentos.

A nível internacional, há um nome incontornável no nascimento da agricultura biológica: Rudolf Steiner, homeopata alemão que criou, a partir da homeopatia, um novo sistema terapêutico natural muito pouco conhecido em Portugal mas com presença significativa na Alemanha e outros países: a antroposofia. Ele impulsionou também o fabrico de linhas de produtos naturais, alguns para tratamento antroposófico e outros para uso corrente em cosmética (estes continuam a ser dos melhores do mundo). Foi este mesmo Steiner quem inspirou, há praticamente um século, a agricultura biodinâmica. Nos anos sessenta do século XX foi fundada a empresa Lima por um grupo de belgas adeptos da macrobiótica. Esta empresa foi pioneira na produção e distribuição de alimentos biológicos, não só na Bélgica como em outros países da Europa.

Centrando-nos em Portugal, encontram-se referências dispersas à agricultura biológica em publicações naturistas ao longo do século XX. Nos anos sessenta e setenta Luís Alberto Vilar, dirigente da Sociedade Portuguesa de Naturalogia (SPN) cultiva biologicamente numa pequena quinta em que ele vivia em Porto Brandão (na margem sul de Lisboa). Visitei um par de vezes essa quinta, onde ele usava uma alfaia que tinha inventado para semear sem calcar o terreno. Foi também o primeiro no nosso país a publicar uma pequena revista, em formato A5, acerca do cultivo biológico, nos anos setenta. Nas lojas da Unimave (União Macrobiótica Vegetariana) e da SPN encontravam-se com regularidade alimentos apresentados como de agricultura biológica, e que provavelmente o eram, já que eram cultivados ou simplesmente colhidos em pequenos terrenos de sócios e entusiastas sinceros da vida e da alimentação natural. Logo a seguir ao 25 de Abril, a Unimave adquiriu uns terrenos na região de Almoster (Santarém) onde iniciou cultivos de arroz, feijão azuki e abóboras hokaido (e outros alimentos de forma menos sistemática). Nessas instalações funcionava também uma máquina de descasque do arroz, permitindo assim o controlo da comercialização de arroz integral. O crescimento rapidíssimo dessa cooperativa exigia alimentos para os seus restaurantes e lojas, que os terrenos de Almoster alimentavam. Mas essa produção era também distribuída por outros estabelecimentos. Foi esta portanto a primeira produção biológica em Portugal, que sobreviveu com sucesso durante alguns anos. Em 1986 o descalabro económico da Unimave (por péssimas políticas de gestão económica e de pessoal) obrigou a que os terrenos fossem alienados para pagamento de dívidas a fornecedores. A viabilidade dessa produção biológica extinguiu-se então.

A segunda produção biológica portuguesa teve lugar desde 1978 na cooperativa agrícola alentejana Soldado Luís, unidade ocupada pelos trabalhadores e que durante alguns anos produziu arroz de grão longo de grande qualidade, cuja produção era na maior parte exportada. Esta apetência pela produção de arroz biológico, comercializado como cereal integral, revela claramente que os únicos consumidores militantes e consistentes eram os adeptos da alimentação natural, basicamente os macrobióticos e os vegetarianos. Estas preocupações não estavam ainda presentes noutras camadas da população, como hoje em dia já estão.

No “Jornal da Via Macrobiótica”, nas revistas “Natura”, “Vida Sã” (órgão da SPN), nos Cadernos Ecologia e Sociedade e nas edições Viver é Preciso da Afrontamento, a questão da agricultura é debatida com textos de qualidade (por exemplo “A Industrialização da Agricultura, salvação ou suicídio da humanidade?” de Claude Aubert, 1977). Tanto nestas como nas publicações do Movimento Ecológico Português (MEP), é incontornável o nome de Afonso Cautela, ecologista da primeira hora e militante incansável da saúde natural nas suas várias vertentes e da ecologia. Aliás, o MEP foi gizado nas salas da SPN e da Unimave, tendo sido nesta cooperativa que, logo em 26 Maio de 1974 teve lugar a primeira e memorável sessão pública de lançamento do MEP, na qual compareceram mais de duzentas pessoas! Os organizadores eram todos dirigentes e activistas da alimentação e saúde natural, a começar por Afonso Cautela e continuando com Jacinto Vieira, Luís Silva, Fernando Moreira, Luís Silva, Gomes Ribeiro e muitos outros. As Edições Cosmogénese (editora macrobiótica dirigida pelo activista macrobiótico Gomes Ribeiro) publicam em 1978 “A agricultura natural” de Michio Kushi (autoridade mundial da macrobiótica), proposta na linha das experiências feitas no Japão por Masanobu Fukuoka. Em meados dos anos oitenta instala-se em Portugal o movimento Moa, que na sua loja de produtos naturais vende o que importa do Japão e chega a patrocinar uma visita a produtores biológicos desse país. Quando, em 1885, é criada a Agrobio (associação que reúne produtores, consumidores e interessados da agricultura biológica), entre os seus fundadores estão também inevitavelmente activistas da saúde natural (nomeadamente o médico Furtado Mateus, falecido recentemente, em Agosto deste ano, um dos fundadores da Unimave e que desde os anos sessenta foi um promotor e praticante da alimentação natural), e quando se realiza a sua primeira feira (precursora da actual Terra Sã), ainda na sede situada na esquina da rua de D. Dinis com a rua do Sol ao Rato, é a Unimave que fornece a comida. Nos seus inícios a Agrobio esteve sediada na Espiral, então um importante centro/restaurante/loja/livraria de alimentação natural em Lisboa e onde tinham tido lugar as reuniões que preparam a fundação da Agrobio.

As lojas de produtos naturais foram desde sempre a única via de escoamento de alimentos de produção biológica. Isto aconteceu até que, em 1993, a Biocoop autonomizou os alimentos biológicos como projecto comercial autónomo. Desde o primeiro momento, os adeptos de alimentação natural foram a sua grande força, como sócios e como clientes. Uma percentagem significativa continua a sê-lo, assim como nas cadeias de lojas bio que na primeira década deste século começaram a surgir.

Como curiosidade importante Carlos Pimenta, nome institucional da ecologia em Portugal e cliente desde os primórdios da Biocoop, foi um dos dois eurodeputados (o outro era belga) que propôs no princípio da década de 1990 o estudo no Parlamento Europeu da legalização das medicinas não convencionais. Os relatórios aprovados por sua iniciativa iniciaram um processo que conduziu a mudanças legislativas na Europa e em vários países, na primeira linha dos quais esteve Portugal.

Que bases comuns encontramos então, resumidamente, entre a agricultura biológica e as medicinas naturais?

  1. A)Ambas baseiam muito do que praticam num respeito pela tradição e pelo acumular do saber adquirido ao longo dos séculos. Complementarmente a esta atitude, o seu posicionamento é de vigilância crítica e sujeitam as tradições à prova da experiência e da racionalidade que os séculos XIX, XX e XXI nos trouxeram.
  2. B)Ambas empregam exclusivamente produtos naturais (preparações de plantas, homeopáticos, etc.). Ambas entendem que produtos químicos de síntese não são inócuos, e que o seu emprego acaba por debilitar o terreno (que neste caso também quer dizer o organismo humano).
  3. C)Ambas baseiam a saúde e o equilíbrio do terreno/organismo no fortalecimento das defesas próprias. Ambas compreendem que um terreno ou organismo dependente de factores externos é vulnerável e susceptível de entrar numa espiral descendente.
  4. D)Ambas entendem que um terreno/organismo se insere num contexto ambiental e cósmico, do qual depende e para o qual contribui.

Não é portanto de espantar que a agricultura biológica seja desde sempre uma evidência para os praticantes da saúde natural.

*Director do Instituto Hipócrates de Ensino e Ciência www.institutohipocrates.pt

 

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