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Escrito por Carlos Ventura
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Quarta, 02 Julho 2008 21:26 |
in revista Natural BeijaFlor 2008 mar
Durante algumas horas, o céu
desabou sobre Lisboa. E Lisboa mostrou como é frágil o seu dia-a-dia, o nosso
dia-a-dia, quando o céu desaba sobre nós e as nossas ruas se transformam em
rios, quando os nossos muros se esboroam, quando os nossos carros se afundam,
quando as nossas caves e casas são inundadas, quando os túneis rodoviários se
tornam lagos e o trânsito se interrompe, quando há centenas de desalojados e
até três mortos.
Têm sido um Outono e um Inverno
secos, os mais secos desde há noventa e um anos. Mas estes desequilíbrios
envolvem que a progressiva escassez de chuva seja pontuada por chuvadas de
grande violência. Foi o que aconteceu na segunda-feira 18 de Fevereiro: no
centro de Lisboa, desde que há registos (1864 - 144 anos!), não há memória de
tanta chuva em tão pouco tempo, confirmando a tendência para que a Europa se
aproxime do que acontece nos trópicos, com tempestades súbitas e devastadoras.
E na verdade, como nos dias anteriores, nos dias seguintes a estas cheias, o
sol voltou, como se nada se tivesse passado... Estas condições, ditadas pelas
alterações climáticas a nível planetário, são agravadas pelo que as autoridades
autárquicas e governamentais não previnem.
Há talvez dez
anos, o então presidente da Câmara Municipal de Lisboa João Soares convocou as
entidades envolvidas na protecção civil e em situações de crise para fazer o
ponto da situação quanto à capacidade de resposta a situações de catástrofe.
Foram visitadas instalações, ouviram-se exposições, puseram-se questões e foram
dadas explicações. E ao fim, perante todos - bombeiros, polícias, forças
armadas, entidades hospitalares, etc, etc - João Soares perguntou ao seu
conselheiro Carlos Capelas o que achava de tudo aquilo. Capelas era um homem
leal, dedicado, frontal. Soares sabia-o bem e era por isso que o ouvia e
confiava nele. Capelas levantou-se e disse: "O que eu acho é que isto é tudo
uma merda!!". E a seguir arrasou as veleidades de resposta eficaz daquelas
estruturas destinadas a responder perante algum terramoto (que mais cedo ou
mais tarde há-de acontecer), inundação (que vem acontecendo e acontecerá cada
vez mais) e outras situações naturais ou não (e estas ameaças vieram para
ficar). Será que o actual presidente da CML (e qualquer um de todos as outras
Câmaras) tem a coragem de escolher conselheiros que lhe dizem
desassombradamente quando o rei vai nu?
Ao longo dos
anos, erros colossais têm sido cometidos. Margens dos rios e dos ribeiros
destruídas, aumento da impermeabilização dos solos, construção sistemática em
linhas de água, as populações vivendo nas periferias mas trabalhando no centro
da cidade...
Carlos Capelas
tinha razão. Todos sentimos que, em situação de catástrofe, as estruturas não
vão conseguir responder eficazmente (e estas pequenas amostras que de vez em
quando vão acontecendo e que, mesmo pequenas, lançam o caos, dizem-nos
claramente que quando acontecer algo a sério será devastador). Até por isso, as
entidades oficiais deveriam fazer um levantamento e convidar à participação
cívica da população. Por exemplo, um directório de quem tem formação de
socorrista para auxiliar o pessoal médico e paramédico; iniciar treinos
periódicos nas escolas e grandes empresas acerca da maneira de reagir,
proteger-se e ajudar em situações de perigo colectivo... Isto, claro, para além
de urgentemente arrepiar caminho acerca dos atentados à segurança que continuam
a ser cometidos.
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