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Já Não Há Estações do Ano? PDF Versão para impressão Enviar por E-mail
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FracoBom 
Escrito por Carlos Ventura   
Quarta, 02 Julho 2008 19:56
in revista Natural BeijaFlor
2006 dezembro

AS 5 ESTAÇÕES E A ESTAÇÃO TERMINAL

Estamos acostumados a situar-nos no nosso clima temperado numa sucessão de quatro estações ao longo do ano: duas extremas e duas intermédias. Não é de agora que os franceses dizem "il n`y a plus de saisons" (já não há estações do ano). E se é verdade que é desde há décadas que se têm notado as alterações climáticas, nos últimos anos elas são de tal forma evidentes que até os que se mostravam mais cépticos não conseguem negá-las.

No Oriente, em vez de considerarem quatro estações, contam cinco. Às nossas Primavera, Verão, Outono e Inverno, acrescentam o Verão de S. Martinho. Este curto período em Novembro não passa despercebido na faixa temperada do Planeta. Em francês chamam-lhe été indien e em inglês indian summer. Depois de o Outono se fazer sentir, o sol reaparece, o tempo aquece, a chuva pára... É um pequeno oásis de equilíbrio, nem muito frio nem muito quente, ameno, uma pausa antes do mergulho nos rigores do Inverno. Ou melhor, era. Escrevo este texto no dia 8 de Novembro e ainda não vesti uma camisola e muito menos um sobretudo. Continuo com as camisas leves de verão. No último fim-de-semana estive na região do Meco, onde a temperatura é em média 3 a 4 graus menos que em Lisboa e toda a gente andava também de manga curta. O Verão de S. Martinho deixou portanto de ser uma excepção no coração do Outono. O sinal de que o Verão acabou são as chuvas, abundantes, tropicais. Já aqui disse que Portugal tem um clima de excepção. Acostumámo-nos a ver catástrofes naturais em todo o sítio menos cá. Mas este ano em Portugal as inundações foram tão violentas que arrancaram linhas de comboio e arrastaram carruagens, linhas de comunicação - férreas e rodoviárias - importantes estiveram cortadas, inundações em regiões onde não é hábito haver tiveram lugar...  Depois, as chuvas param e ficamos outra vez com sol, com o chapéu-de-chuva fechado e em mangas de camisa... Em 1985 vivi nove meses em Miami e o clima de cá lembra-me cada vez mais o clima subtropical de lá. Ainda faltam os tufões mas não perdemos pela demora.

Nas eleições americanas deste Novembro Bush perdeu e esperemos que esta viragem o obrigue a temperar com algum bom senso o seu radicalismo anti ambiente. Mas devo dizer que, apesar de todas as boas notícias trazerem alguma esperança, o ponto global de não retorno é uma ameaça presente e real. Basta dizer que, mesmo que desde hoje deixássemos de produzir poluição, a degradação do ambiente continuaria a agravar-se nos próximos trinta anos. Porém, ao contrário de parar, o que se passa é o oposto, ou seja, a produção de poluição está em crescimento exponencial. A situação é muito mais dramática do que o nosso despreocupado dia-a-dia nos leva a pensar. O mês passado falei do filme Uma Verdade Inconveniente, encarado como uma pedrada no charco, o que de facto é. Mas, na verdade (e percebo porquê) o filme acaba por não dizer o que, estou convencido, Gore no íntimo sabe... E a questão central é se ainda iremos a tempo de inverter a situação. A história que a certa altura Gore conta, vem a propósito lembrá-la aqui. Se atirarmos com um sapo para uma panela de água a ferver, ele salta imediatamente cá para fora. Mas se o metermos enquanto a água está fria e a formos aquecendo com o sapo lá dentro, ele não sai de lá e morre cozido sem reagir. A metáfora ajusta-se perfeitamente ao que está a acontecer com a humanidade, anestesiada pelas luzes do consumismo sem o qual não queremos (ou já não podemos?) passar.

Os atentados ecológicos revelam inconsciência, falta de discernimento e de sensibilidade. E é claro que ecologia (do grego casa) tem a ver com o nosso planeta que nos alberga e do qual fazemos parte. Mas em última análise, o que debatemos quando falamos de ecologia é a viabilidade biológica que conhecemos hoje. Se não conseguirmos controlar os desequilíbrios que se estão a instalar, a humanidade e as restantes espécies animais e vegetais vão ter condições cada vez mais inóspitas à sua sobrevivência. Já muitas espécies estão a definhar e a desaparecer, mais muitas mais vão extinguir-se. Largas camadas da humanidade deixarão de ter espaço vital propício, os elementos descontrolados já ameaçam e ameaçarão muito mais no futuro próximo as populações em largas zonas do Globo. Os recursos naturais poluídos - a água, o ar, os solos, os alimentos - serão progressivamente impróprios para a saúde das populações. Indubitavelmente, nas próximas décadas muitos milhões de seres humanos sofrerão de fome e sede. E se já no presente muitos não sobrevivem, muitíssimos mais morrerão, a começar por África e alastrando o problema a outras zonas e continentes.

Em última análise, quem sofrerá com as agressões será, a par das restantes espécies, o próprio Homem. Se for o caso e os desequilíbrios planetários forem demasiado insanáveis (e isso é uma possibilidade real), grande parte, ou mesmo a totalidade, da Humanidade poderá ser varrida da superfície da Terra. O Planeta Terra, esse, continuará a sua viagem harmoniosa, solitária e silenciosa pelo espaço. Nós estamos a um passo de sermos expulsos do paraíso, pela segunda vez, mas desta vez é muito pior, porque o deixaremos poluído e impróprio para que as outras espécies o continuem a habitar. Da primeira nós saímos mas a cobra e a macieira continuaram vivas.

 

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