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A Fome, a Obesidade e o Petróleo PDF Versão para impressão Enviar por E-mail
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FracoBom 
Escrito por Carlos Ventura   
Segunda, 02 Junho 2008 18:42

in revista Natural BeijaFlor 
2008 junho

A gordura/excesso de peso já foi, em tempos, a reserva para a possibilidade de períodos de fome e penúria. Eram tempos de precariedade, de quotidiano sóbrio, sujeito às intempéries, às guerras e aos assaltos; tempos nunca com grandes reservas alimentares e em que as trocas comerciais estavam incomparavelmente menos asseguradas que actualmente. Mas hoje a obesidade é seguramente, de todas as doenças, a mais absurda. Porque esta é a sociedade da abundância, do excesso, do desperdício, em que o problema não é a falta, mas o excesso de oferta e de aquisição - e a obesidade é dela a face mais visível e clara.

O alimento fornece-nos energia. Mas como actualmente não a despendemos em trabalho útil, esfalfamo-nos no "desporto", no "ginásio", no "jogging"... para "estar em forma", para "perder peso"... Em resumo, por um lado gastamos dinheiro e recursos comendo demais e mal - por outro lado gastamos dinheiro e tempo para gastar aquilo que não deveríamos ter adquirido.

Este é o nosso mundo. Mas há outro, oposto. É o lado negro da Terra, onde cresce a fome, onde a fome mata mais seres humanos do que alguma vez matou. Neste nosso tempo paradoxal, iníquo, violentamente contraditório, coexistem o maior luxo, a maior abundância com a fome mais desesperada, o maior número de deserdados que jamais existiu. E o que tem vindo a acontecer é que quanto mais cresce o número de multi-milionários, mais cresce o número de famintos. Porquê? Porque a esmagadora maioria das fortunas instantâneas actuais não são baseadas na produção, mas na especulação. Não criam, não distribuem riqueza e bem-estar. Especulam, movimentam somas astronómicas de valores a partir das bolsas de valores, provocando falências e desemprego, bancarrotas em países já de si frágeis e em perda acelerada de autonomia. Assim, há cada vez mais multinacionais muito mais poderosas que países - e são elas que governam os países, controlando, elevando ou arruinando economias e tendo um poder decisivo sobre milhões de pessoas.

É neste contexto que surgem os transgénicos. E porque nesta nossa sociedade tudo pode ser pretexto para mais lucro, o grande argumento do lóbi dos transgénicos é que mais produção alimentar resolveria o problema da fome... A questão é que quanto mais se produz, mais fome há no mundo! E na verdade, nunca houve tanta produção alimentar nem tantas reservas de alimentos como agora. Então porque é que eles estão numa escalada de preços incontrolável? A resposta mais evidente é a moda dos biocombustíveis - ou seja, alimentos desviados do seu uso alimentar para serem usados como combustíveis. Uso aliás por vezes desastrosamente irracional: a produção de um litro de etanol nos Estados Unidos utiliza mais energia do que a que esse mesmo litro contém. Por estas e por outras é que Jean Zigler, director da Nações Unidas para o Direito à Alimentação, declarou que o cultivo de biocombustíveis (com a consequente redução da área destinada à produção de alimentos) configura um crime contra a Humanidade.

Associado a todo este quadro, está o aumento do preço do petróleo, batendo sucessivos recordes. Em Maio, só num dia aumentou quatro vezes... E é porque há falta de petróleo? Não. A descoberta de jazidas riquíssimas continua. Então porque aumenta? A resposta está - mais uma vez - em grande parte, nas especulações bolsistas. Mas o que é verdade é que aumenta.

Por estas razões, governos já começaram a cair nos últimos meses (como no Haiti); noutros países, as forças armadas passaram a montar guarda a propriedades agrícolas, ameaçadas de assalto pelas populações sem alimento; nos Estados Unidos a venda do arroz já está racionada; a Europa, pela primeira vez desde o fim da II Guerra, encontra-se sem reservas de cereais...

Todo este jogo do monopólio com propriedades e pessoas reais vai dar - já está a dar - muito mau resultado. A fome é má conselheira.

 

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