Eventos

Entrada Artigos Alimentação Carne, Novo-Riquismo e Consumo
Carne, Novo-Riquismo e Consumo PDF Versão para impressão Enviar por E-mail
Avaliação: / 1
FracoBom 
Escrito por Carlos Ventura   
Quarta, 02 Julho 2008 21:23
in revista Natural BeijaFlor
2008 fev

CARNE, NOVO-RIQUISMO E CONSUMO

É verdade que, em cada ano que passa, mais e por mais gente é questionado o modelo alimentar baseado na carne.

Ao longo da História e desde a pré-história, a caça sempre foi uma actividade preparatória da guerra e, neste sentido, associada aos guerreiros. Épocas houve, até, durante as quais ela era actividade exclusiva da casta dos guerreiros/nobres, e pesados castigos (inclusivamente a morte) eram infligidos aos elementos das classes baixas que infringiam essa prerrogativa dos poderosos.

E foi assim que a abundância da carne na alimentação foi sendo encarada, tanto pelos poderosos como pelas classes mais baixas, como um emblema de alto estatuto social. Durante séculos, foi comum gerações sucessivas de grande parte da população comerem pouca ou quase nenhuma carne. Em compensação, os nobres alimentavam-se com forte excesso de carne e desprezavam os legumes e leguminosas, alimentos que abundavam na alimentação dos pobres. Na verdade, nem as frutas tinham lugar à mesa dos nobres, e só o passaram a ter quando as frutas exóticas chegaram de latitudes tropicais - mas porque eram exóticas, não por serem frutas... A sociedade feudal acabou, mas o estatuto da carne perdurou. Aliás, até há bem pouco tempo, o mito da carne como alimento superior teve o esforçado e diligente suporte da ciência. Por um lado, portanto, havia o ressentimento imemorial popular de ver os poderosos comerem um alimento aureolado pelo prestígio de alimento exclusivo e (portanto) quase mágico. Por outro, ao longo de um século a ciência não questionou essa visão, perpetuou a qualidade alimentar da carne e limitou-se a justificar os preconceitos sociais. A política oficial, coberta por razões sociais e científicas, era a de preconizar sempre crescentes consumos de carne.

Presentemente, isto mudou. É assumido que afinal os objectivos estabelecidos até há poucos anos são, por um lado, contraproducentes na promoção da saúde das populações - e não é dramático admitir que é possível viver sem consumir (ou consumindo pouca) carne. Por outro lado, é inquestionável que a promoção do consumo da carne levou a uma hecatombe ecológica - por exemplo, enquanto ao produzir um quilo de carne de vaca resultam 12 kg de CO2, para produzir um kg de trigo resultam não mais que alguns gramas; os terrenos de cultivo são ingloriamente utilizados, não para consumo humano, mas para rações animais (90% da soja produzida no mundo é para alimentar animais...); na Amazónia, 70% da sua área verde foi convertida em pastagens... Os números são espantosos... mas são só mais alguns dos que, em cascata, todos os dias confirmam a desenfreada e irracional destruição que estamos a cometer - do Planeta e de nós mesmos. E já agora: as horríveis fomes que (mais do que nunca) devastam regiões e povos têm em boa parte e directamente a ver com a substituição das culturas tradicionais por culturas para forragens e plantações para exportação para os países ricos. Essas populações ficaram sem as suas ancestrais culturas de subsistência e, é claro, sem os lucros da exportações que nunca foram supostos beneficiá-las. Mas esses contingentes de deserdados são só danos colaterais de longínquos e anónimos movimentos bolsistas. Imagens discretas, moribundas, incómodas, repetitivas nos noticiários. Não é nobre... nem é bom...

 

Subscreva Newsletter

Medicinas Não Convencionais


Receber em HTML?