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Medicinas Não Convencionais - Deontologia
Escrito por Carlos Ventura   
Segunda, 19 Abril 2010 18:02

Din revista Natural, 2010 abril
                                                                                                                          UM TRATADO MÉDICO PORTUGUÊS

Carlos Campos Ventura*

Rodrigo de Castro, médico de alto gabarito que muitos consideram ser o fundador da ginecologia portuguesa, viveu no século XVI e XVII e escreveu o importante tratado De Universa mulierum medicina. Desta vez, porém, quero falar do seu célebrado Medicus politicus, que escreveu em 1614. Nessa altura era ele já sexagenário, depositário portanto de enorme experiência e estudo, e capaz de reflexão profunda acerca das grandes questões da profissão e da arte médicas. A este dado individual, acrescentemos que viveu na época em que Portugal era o centro do mundo, com notabilíssimos médicos, botânicos, navegantes, cartógrafos, astrónomos, eruditos... tanto portugueses como também outros oriundos das sete partidas do mundo. Esta vivência cosmopolita e universalista enriqueceu e estimulou a nação e os nacionais. Rodrigo de Castro escreveu o Medicus politicus (dedicado aos seus filhos Bento e Daniel Castro, então estudantes de medicina), livro que continua e expande os escritos editados em 1595 pelo também médico Jorge Henriques, aos quais acrescenta muitos aspectos inovadores.

Reproduzo, do índice: "Apontam-se os vícios de que (os médicos) devem fugir, as virtudes a imitar; a maneira de se vestirem, o aspecto do rosto, o andar, os costumes e os hábitos, bem como quanto convém à sua gravidade e bom senso."; "Expõe-se o que lhes está indicado como adorno; o que deva pensar da fascinação, dos filtros e dos charlatães; (...) fala-se de gracejos e anedotas (...) e... de muitas coisas mais."

Se nos debruçarmos sobre os capítulos, veremos que no primeiro livro define o médico e a medicina (cap. 1), afirma que esta deve ser racional e aquele bom e prudente (cap. 3), rejeita a seita dos empíricos (cap. 4), a dos metodistas (cap. 5) e a dos químicos (cap. 6), censura os que acusam a medicina e os médicos de não serem necessários à república (cap. 7). No segundo livro critica a Astrologia (cap. 2), discute se o médico deve ser cirurgião (cap. 3), reprova-lhe a acumulação do mester de perfumista e droguista (cap. 4), estuda a origem e evolução da arte médica (cap. 6), é de opinião que se prefira o médico mais velho ao mais novo, cuja experiência principia (cap. 10), devendo também preferir-se a razão à autoridade (cap. 11), mostra como a arte médica se deve inspirar na natureza e ter por guia o bom senso (cap. 12), sem esquecer contudo a tradição (cap. 13), aconselha ao doente a escolha do médico de boa e íntegra saúde (cap. 15). O terceiro livro enumera os piores vícios do médico (cap. 3), que deve fugir da avareza e da inveja (cap. 2), dissertando acerca do vestuário e a maneira de abordar o doente (cap. 4), aconselha um diagnóstico cauteloso, narrando vários episódios de casos inesperados e desesperados, que se salvaram, (cap. 7), até que ponto e em que condições deve o médico ser gratificado pelo seu trabalho (cap. 8), se ao médico compete iludir o doente com a esperança de uma cura impossível (cap. 9), trata da atitude do médico quando o doente perdeu o uso da razão (cap. 13), discute se ao médico é permitido negar-se à consulta (cap. 15), censura asperamente os que abandonam os casos fatais (cap. 17), bem como os incuráveis (cap. 18), aconselha os médicos a não tratarem mais doentes do que são capazes (cap. 19), é de opinião de que são convenientes as conferências clínicas nos casos difíceis (cap. 20), julga que o médico deve fazer o preço do seu trabalho, porque a arte que se não vende não presta (cap. 21), disserta largamente sobre se o médico deve ser chamado à justiça por um remédio mal administrado e sofrer qualquer pena (cap. 23) e termina com um estudo acerca do exercício ilegal da medicina (cap. 24).

O quarto livro ocupa-se do feitiço (cap. 1), dos filtros (cap. 2), dos alexícacos, chamados benzedeiros em Espanha, isto é, que curam por palavras (cap. 3)...

Esta obra tem uma forte componente deontológica, mas não se limita a essa área básica da profissão da saúde. Ela "ensina aos médicos as disciplinas que lhes são necessárias, quais os meios de trabalho, e o modo como devem organizar a sua biblioteca e o mais que conduz ao êxito" (do índice), sendo portanto, e na verdade, também um tratado do ensino da medicina. Afinal, o autor escreveu-o como legado para os seus filhos.... e mesmo que tenham passado desde então quatrocentos anos, quem nos impede de aproveitar as suas lições?
NOTA: para este artigo socorri-me do prefácio de A. de Rocha Briito ao livro O Médico de Maurice de Fleury, publicado em 1937 pelo editor Arménio Amado

Director do Instituto Hipócrates de Ensino e Ciência www.institutohipocrates.pt
 

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