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A Importância Alimentar das Uvas Versão para impressão Enviar por E-mail
Medicinas Não Convencionais - Alimentação
Escrito por Carlos Ventura   
Sexta, 29 Outubro 2010 22:30

 in revista O Sgredo da Terra, 2010 out

A importância alimentar das uvas

                                                                                                                                                                                                                                                                  Carlos Campos Ventura*

"Se os portugueses, dizia já Linneu referindo-se às condições exigidas num solo para a boa vegetação duma vinha, reconhecessem bem todos os recursos nativos, constituiriam a nação mais feliz do mundo, tendo todas as outras por suas tributárias." Eduardo Freire, A cura pelas uvas (dissertação inaugural apresentada à escola Médico-cirúrgica do Porto em data não identificada, provavelmente entre 1915 e 1920)   

Não é possível falar da nossa sociedade sem falar da videira, do seu fruto e dos derivados que as culturas dos povos da zona mediterrânica foram desenvolvendo ao longo dos milénios.

Supõe-se que começou por ser cultivada na Ásia Menor e é certo que também o foi no Egipto. Sabe-se que há dois mil e quinhentos anos era alimento na Grécia e também transformada em vinho, lá tendo atingido um estatuto ritual importantíssimo, como símbolo de Dionísio. São abundantes as representações de uvas na arte grega. Os fenícios e os gregos trouxeram a uva e a vinha para a região que é hoje Portugal, mas foram os romanos que se estabeleceram como agricultores e vinicultores, nomeadamente no que é hoje o Alentejo. Desde então daqui se iniciou a exportação de vinho para Roma, e ainda hoje Portugal continua a ser uma referência vinícola a nível mundial. Entre as numerosas referências ao longo da História, lembremos as de Plínio (séc. I) e Lineu (séc. XVII), que recomendaram a uva como medicinal.

A uva fresca - assim como a seca e o sumo - é laxativa.

 

Frescas- tanto as brancas como as pretas são bons alimentos, apesar de as segundas (assim como os seus sub-produtos) serem bem mais ricas em antioxidantes e, devido aos seus pigmentos, protectora dos vasos sanguíneos. Como com a generalidade dos frutos, é melhor serem consumidas fora das refeições e deve ser consumida bem madura e o menor tempo possível após ser colhida.

As uvas frescas contêm muita água (cerca de 82%), 16% de glúcidos directamente assimiláveis e 1% de proteínas. São energéticas (80 calorias por 100 gramas) e ricas em numerosos elementos minerais (cálcio, cloro, cobre, enxofre, ferro, fósforo, iodo, magnésio, sódio, zinco, grande quantidade de potássio, etc) e numerosas vitaminas (provitamina A, complexo B B1, B2, B3, B5, B6 e C), pectina, taninos... A uva é portanto remineralisante, estimulante e desintoxicante. Desde há muitos anos que são praticadas curas desintoxicantes e depurativas de alguns dias até duas ou três semanas em que o alimento é exclusivamente uvas frescas (um a dois quilos por dia). Mahatma Gandhi utilizava como único alimento nas suas curas uvas e sumo de uva. Os bons resultados têm principalmente a ver com problemas hepato-biliares e obesidade, mas também em casos de gota e problemas de pele são praticadas. "A cura pela uvas" é o título do livro escrito pela enfermeira sul-africana Johana Brandt que nos princípios do século XX se curou de cancro pelo método que depois divulgou e com o qual tratou muita gente.

Passas- lembremos a começar que não é só a uva fresca que deve ser lavada, mas também o fruto seco. Este tem grande percentagem de açúcares (cerca de 70%), conserva uma razoável quantidade da provitamina A e todas as do complexo B. É muito energético, assimilável e antianémico. No nosso território, os muçulmanos já presentes antes da nacionalidade, porque o álcool lhes está vedado, apreciavam a uva fresca e seca. Legaram-nos assim o termo acepipe com o significado de iguaria apetitosa; guloseima, porque passa de uva é, em árabe, az-zebib.

Sumo- o sumo de uva, como todos os outros, contém muitos dos nutrientes do fruto, mas deixou de ter a esmagadora parte da fibra. Para que se conservem os nutrientes, deve ser feito no momento do consumo. É naturalmente diurético, mais ainda que a uva fresca.

Este sumo feito na altura é um bom "leite regenerador" da pele. Depois de o sumo ficar espalhado na pele durante uma dezena de minutos, lava-se primeiro com água morna e em seguida com água moderadamente fria.

Vinho- "este é o meu corpo"... O simbolismo da fermentação e da cor é omnipresente na cultura mediterrânica (e desde há quinhentos anos, com os descobrimentos, em muitas outras partes do mundo). Mas como poderíamos esquecer a importância simbólica da uva? Da Grécia e Roma Antigas ao cristianismo e à maçonaria, os cachos de uvas e o vinho estão presentes nas celebrações e nos rituais.

Para além de tudo, quem viveu os rituais das vindimas, o pisar da uva, a fermentação... a prova do vinho novo, o cheiro a mosto por toda a aldeia... sabe como é inebriante (é o termo!) e marcante essa época do ano festiva e comunitária. O vinho é mais diurético se é branco e mais adstringente se é tinto. É sem dúvida o rei das bebidas alcoólicas à base frutos, tendo conquistado o mundo inteiro. É reconhecido que, em pequenas quantidades, pode ser dieteticamente recomendável acompanhando carne, peixe, ovos ou queijo salgado, mas o seu papel inegável sempre foi o de bebida recreativa e ritual, não principalmente alimentar. E não podemos deixar de lembrar que o excesso de álcool é responsável por inúmeros acidentes, sofrimento, agressões e crimes. Não concordamos portanto com a frase de Pasteur, que dizia que "o vinho é a mais higiénica das bebidas". Quanto a nós, é sem dúvida a água.

Vinagre- o seu uso sempre foi diversificado: como tempero, conservante e remédio. Existe desde os tempos mais recuados - na Babilónia era preparado há já sete mil anos. De notar que externamente é muito eficaz em feridas, queimaduras e picadas de insectos

Folha de videira- a folha é usada tradicionalmente em vários países (inclusivamente Portugal) para sobre ela se cozer o pão e por exemplo na Grécia entra em algumas preparações culinárias. É usada como planta medicinal, por exemplo em chá para hemorróidas.

Óleo de grainha de uva- é constituído quase totalmente por ácidos gordos poli-insaturados desde que, obviamente, seja de primeira pressão a frio e tenha uma adequada conservação. A grainha de uva é riquíssima em antioxidantes e uma activo laxativo, e é interessante referir que já existe farinha de grainha de uva, que pode adicionar-se a preparados culinários.

*Director do Instituto Hipócrates de Ensino e Ciência www.institutohipocrates.pt 

 

BIBLIOGRAFIA: Aubert, Claude, Les aliments fermentés tradicionnels, ed. Terre vivante; Donadieu, Yves, Votre santé au quotidien, ed. Robert Laffont; Freire, Eduardo, A cura pelas uvas, ed. Sociedade Vegetariana; Katalyse, Le petit guide de l´alimentation saine, ed. Terre vivante; Melo, Manuel, Guia prático da alimentação saudável e da terapêutica natural, ed. Plátano; Nunes, João Ribeiro, Alimento biológico humano - Sebenta do Curso de Fitoterapia do Instituto Hipócrates de Ensino e Ciência; Segredos e virtudes das plantas medicinais, ed. Selecções Reader´s digest; Straten, Michael Van, Guia da alimentação saudável, ed. Centralivros;  Ventura, Carlos Campos, O pequeno livro dos alimentos saudáveis, ed. Gradiva

 

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