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A civilização dos hidratos de carbono e a civilização da proteína Versão para impressão Enviar por E-mail
Medicinas Não Convencionais - Alimentação
Escrito por Carlos Ventura   
Terça, 03 Novembro 2009 21:50

in revista Natural 2009 Novembro
A civilização dos hidratos de carbono e a civilização da proteína                                                                                                                          Carlos Campos Ventura

Durante cerca de dez milhares de anos (ou menos, conforme as regiões), os seres humanos das zonas temperadas do Planeta tiveram como principal alimento os cereais. Já desde antes, as populações nómadas e semi-nómadas, recolectores-caçadores, se alimentavam de cereais selvagens, o que quer dizer que a quantidade ingerida era variável mas os cereais estavam de facto já presentes. Depois, com a instalação das práticas agrícolas, os cereais passaram a ser cada vez mais omnipresentes na dieta quotidiana dos povos. Para além dos cereais, as leguminosas cultivadas também passaram a ser incontornáveis como fonte diária de proteínas. Os legumes e as frutas, que desde sempre haviam integrado a alimentação de nómadas e semi-nómadas (assim como das espécies pré-humanas), passaram, eles também, a ser cultivados de forma mais estável (o que evidentemente não significa que os vegetais silvestres - frutos, legumes, ervas aromáticas e medicinais - não tenham continuado a ser consumidos).

Na civilização agrícola, a esmagadora percentagem dos alimentos são de origem vegetal. Ora, estes - todos estes - são principalmente ricos em hidratos de carbono. Será bom não esquecer que todos estes alimentos são também importantes fontes de fibras - que são, na realidade, também hidratos de carbono (apesar de muito especiais). É igualmente importante notar que estes alimentos são ricos num leque largo de nutrientes e micro-nutrientes: vitaminas, minerais, enzimas, e alguns em lípidos e fosfolípidos...

Nos inícios do século XX, a civilização agrícola iniciou um gradual declínio, que se acentuou e começou a consumar-se com o fim da II Grande Guerra. A partir daí, a alimentação desta nova época foi adquirindo, a um ritmo rapidíssimo, características absolutamente novas, nunca antes existentes em qualquer dieta de nenhum grupo humano ou não humano. Ou seja, enquanto as dietas que existiram desde sempre e até meados do século XX sempre resultaram de circunstâncias específicas de teor climatérico, geográfico, geológico e civilizacional - o que as fazia adaptadas às respectivas populações, aquela que se desenvolveu nos anos cinquenta do século XX e a seguir aceleradamente se expandiu, resulta da industrialização então já existente (em parte desenvolvida com objectivos militares naqueles últimos anos) e às condições do mercado. Pela primeira vez na História, a alimentação dos grupos humanos deixa de ser motivada pelas suas necessidades e possibilidades nutricionais, para o ser por causas externas e até em muitos casos claramente contraditórias com aquelas - interesses económicos e industriais. Daqui resulta que esta dieta e estes alimentos se expandam a nível global, a partir de cadeias multinacionais, estando presentes em todos os países de todas as latitudes e reformatando e uniformizando as dietas de todos esses povos. Como consequência deste desproporcionado consumo de proteína animal, a produção animal transformou-se numa indústria monstruosa de carnes e derivados, de ovos e leite. As consequências ambientais terríveis destas indústrias estão já à vista de todos.

Quanto aos nutrientes, esta "dieta moderna" tem uma fortíssima componente proteica, basicamente oriunda de fontes animais. Há outras componentes incontornáveis, como um crescendo dos açúcares simples e a consequente quebra dos hidratos de carbono complexos. A par disto, há um leque de micro-nutrientes que também diminuíram. Todas estas mudanças levaram a que várias doenças se instalassem e crescessem abruptamente - obesidade, diabetes, cardio-vasculares, alérgicas, imunitárias...

A desadaptação da alimentação moderna relativamente às nossas necessidades nutricionais é acrescida pelo facto de actualmente as vidas da maior parte da população não envolverem esforços físicos, ao contrário dos nossos antepassados que comiam muito menos calorias e muito menos proteína e trabalhavam duramente.

Em resumo, enquanto a civilização dos hidratos de carbono era sustentável nutricional e ambientalmente, esta actual civilização da proteína está a revelar-se desastrosa para a saúde das populações e calamitosa para o ambiente. Nestes dois conceitos cristalizam-se não só duas dietas (a tradicional e a moderna) mas também dois projectos de sociedade.
 

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