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Agricultura em Portugal - Apogeu e Morte Versão para impressão Enviar por E-mail
Medicinas Não Convencionais - Alimentação
Escrito por Carlos Ventura   
Quarta, 23 Setembro 2009 15:58

in revista Natural 2009 set
AGRICULTURA EM PORTUGAL - APOGEU E MORTE

Carlos Campos Ventura*

A civilização agrícola atingiu o seu auge em Portugal a meio do século XX. Nesses anos, as festividades, os costumes, as tradições, os ofícios e, é claro, os campos estavam pujantes. As aldeias estavam povoadas e activas, os trabalhos agrícolas ocupavam as populações e produziam alimento, materiais e madeiras para construção, mobiliário e utensílios. 

Muitas aldeias e povoados estavam isolados, sem estrada (por exemplo, lembro-me que a estrada nacional de Braga a Chaves só foi alcatroada na década de sessenta), sem electricidade, sem escola (tenho relatos de sítios em que as crianças, ainda nos anos sessenta, andavam duas horas por caminhos de montanha, ao frio, à chuva e à neve e às vezes a ouvir o uivar dos lobos para chegar à escola)... Entregues a si próprias, essas populações eram, portanto, quase auto-suficientes. De tempos a tempos, lá iam chegando à loja uns panos e roupas, algumas alfaias agrícolas, algum arroz ou massas... De resto, alimentavam-se do que cultivavam e do que as suas terras davam. Construíam as suas casas, vestiam o seu linho e a sua lã. Os sapatos eram um bem precioso, usados para ir à missa ou para alguma ocasião especial (as ocasiões especiais tinham sempre, de alguma forma, algum vínculo à autoridade da Igreja, que as avalizava), portanto no dia-a-dia era normal andarem descalços ou calçados com tamancos de madeira. O trabalho era diário e violento. Foi esse esforço sobre-humano que ao longo de milhares de anos humanizou a paisagem, talhou os socalcos do Douro, da Madeira e do Japão, cultivou cada metro de terreno arável, secou pântanos, ergueu moinhos, levadas e pontes... e, a par destas obras materiais, construiu uma civilização - a agrícola - feita de um saber profundíssimo acerca dos ritmos das estações, das culturas, da feitura de alimentos tão complexos e delicados como o pão, o vinho, o azeite, a azeitona, o queijo, a cerveja, a conservação do peixe (para só falar dos que são mais típicos das nossas terras) e de outros que outros povos elaboraram pela Europa fora, pela Ásia, Américas ou África... A utilização dos recursos estendia-se a todas as áreas, como as propriedades das plantas medicinais e a prática de dietas perfeitamente adaptadas ao clima e alimentos existentes. Todas estas culturas foram baseando a sua existência numa sabedoria muito própria, transmitida por aforismos e direitos consuetudinários.

Uma ou duas vezes por ano, na feira de alguma aldeia ou vila mais próxima, compravam artigos mais difíceis de obter, e frequentemente isso era feito por troca directa, já que o dinheiro era um bem raro e estranho àquela economia de sobrevivência. As feiras e as festividades, as mais importantes acompanhadas dos respectivos arraiais, eram ocasiões incontornáveis de convívio das gentes da região. Ocasião de negócios, reencontros, bailes, namoricos e futuros casamentos. Para as classes mais baixas, os locais de sociabilização até aos anos sessenta eram, tipicamente, a igreja (para as mulheres) e a taberna (para os homens). No mundo rural, acontecia haver na aldeia um único estabelecimento que vendia tudo. Neste caso, nessa tenda as mulheres faziam as compras durante o dia e os homens serviam-se dela como taberna à noite.

Porém, a par deste isolamento e deste trabalho insano, a vida na aldeia era intensa e vibrante. A vida social era permanente, fosse em pequenos povoados - que mantinham laços com outros mais ou menos próximos - fosse em aldeias que já tivessem escola, igreja, estrada ou médico. As vindimas, as desfolhadas, as ceifas eram ocasiões de colaboração colectiva e sociabilização.

E de repente, em poucos anos, tudo se desmoronou. Em duas décadas, a de cinquenta e a de sessenta do século XX, diante dos nossos olhos, a civilização agrícola em Portugal passou do auge à morte. Quando o 25 de Abril se deu, em 1974, ela era já moribunda. Como é que isso foi possível?

Nos anos sessenta, a emigração (que sempre existira, mas principalmente para África e Brasil) atingiu níveis enormes, incentivada pela guerra colonial - que encorajou os jovens a escaparem-se-lhe - e pela atracção que o desenvolvimento (proporcionado pelo pós-II guerra mundial) de países próximos europeus, nomeadamente em França, Alemanha, Luxemburgo, Bélgica ou Holanda teve nas populações rurais portuguesas.

Ou seja, Portugal deixou durante séculos ao Deus dará os seus filhos e eles acabaram por debandar. Estavam descalços, rotos, remendados, à mercê das intempéries e das prepotências de senhores da terra todo-poderosos e de abades boçais. Havia uma cultura tradicional entranhada em camadas milenares, expressa nos sons que Giacometti recolheu e Leite Vasconselos coligiu? Sim, havia. Era uma cultura popular desrespeitada pelas limitadas urbes letradas, num país que nunca teve a capacidade de avançar em conjunto. Era um povo com fortíssima e elaborada cultura popular mas iletrado, sem capacidade de casar essa cultura ancestral com uma outra universal e urbana.

Nos campos, os pobres viviam em tugúrios gélidos, aquecendo-se ao serão à lareira que enegrecia de fuligem as paredes e os tectos. E quando os primeiros homens começaram a partir, os elos familiares e de vizinhança arrastaram aldeias e regiões inteiras. Como andorinhas, voaram em bandos para longe, procurando beirais mais abrigados. Ainda cá voltam no Verão, ao calor das terras onde nasceram - mas de visita. Partiram os jovens, ficaram os velhos; as crianças e as mulheres foram indo depois. E foi assim que uma civilização com quase dez mil anos morreu em duas décadas.
 

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