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A colherada e a colherinha Versão para impressão Enviar por E-mail
Medicinas Não Convencionais - Alimentação
Escrito por Carlos Ventura   
Quarta, 21 Janeiro 2009 17:28

IN Natural BeijaFlor2009 fev
 
A colherada e a colherinha
É verdade que os hábitos mudaram dramaticamente e de forma estonteantemente rápida desde o fim da II Grande Guerra. Mas seguramente as mudanças que mais profundamente afectaram a saúde das populações foram as alterações alimentares.
Estas mudanças revelam-se em pormenores em que nem se pensa. Deixem-me escavar no nosso quotidiano para dele desenterrar aspectos da nossa vida oculta de há poucas dezenas de anos, comparando-os com a actualidade, que é seu reflexo e seu espelho invertido…
Eu sei que a raiz latina é diferente, mas é irresistível notar que a palavra colher (de sopa) é exactamente igual a colher (= tirar da planta os frutos, flores ou folhas; apanhar; recolher; receber; intr. provar).
A colher de sopa. A sopa, alimento dos pobres (que era grande parte da população) e de todos. Em pratos grandes, fundos, redondos, honestos, acolhedores e maternais. Ou em malgas rotundas, largas, fortes, onde cabia a sopa, quente, fumegante, alimento para todas as estações e para todas as horas – à ceia, ao jantar e ao almoço. Que eram, é bom dizê-lo, o que hoje dizemos ser o jantar, o almoço e o pequeno-almoço, porque o dia então começava cedo… A sopa na casa, na taberna, no descampado ou no salão. A sopa grossa, rica ou rala, do remediado, do senhor ou do faminto. E as colheres de sopa. Grandes, fundas, largas, à imagem dos pratos e das malgas em que se afundavam e de onde colhiam o caldo e o conduto. Em cima da mesa o pão. E as colheres de sopa de agora? Dir-se-iam colheres de sobremesa de antigamente… pequenas, raquíticas, ornamentais, condizentes com as tigelinhas de sopa de agora, taças de consomé ou chávenas de caldo.
A diferença entre as colheres de – ainda - há trinta anos e as de hoje revelam bem como a sopa perdeu importância na alimentação dos europeus. Era com muitíssima frequência uma refeição completa, incluindo cereal (muitas vezes semi-integral, quando não integral), feijão ou grão (ou, muito menos vezes, carne ou peixe) e sempre muitos legumes. Hoje em dia, nas poucas vezes que se come, é um creme passado, tipo comida de bebé, que em meia-dúzia de colher(zinha)s está despachado, para dar lugar então à comida (e às causas das doenças) dos ricos que hoje todos presumimos ser: carnes, fritos, ovos, cereais refinados…
Há alguns séculos, à volta da mesa, toda a família. No centro, a grande travessa ou o alguidar com a comida comum. Na mão de cada um, uma colher (quando havia para todos, porque se não as colheres passavam de mão em mão). E a refeição decorria com cada um comendo - metendo a colherada no recipiente comum. É aliás daqui que vem a expressão “meter a colherada”, que hoje em dia significa “meter-se na conversa”…
Durante muitos milénios, a comida dos seres humanos foi principalmente composta por sopas e papas. Assim, o primeiro e mais fundamental utensílio para as pessoas comerem foi, até há muito pouco tempo, a colher.
Eis porém chegado o tempo em que a colher perde a sua importância central na alimentação. Os utensílios actuais são a faca e o garfo: agressivos, cortantes, perfurantes, contundentes. A colher redonda, macia, amável, integradora é o passado. Será o futuro?
*Director Executivo do Instituto Hipócrates de Ensino e Ciência (www.InstitutoHipocrates.pt)

 

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