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Michio e Aveline Kushi Versão para impressão Enviar por E-mail
Medicinas Não Convencionais - Alimentação
Escrito por Carlos Ventura   
Quarta, 02 Julho 2008 17:37
in revista Natural BeijaFlor
2006 agosto

Michio Kushi

Este é o ano em que Michio Kushi completou oitenta anos. Quando o conheci, em 1975, tinha ele acabado de completar quarenta e nove anos, estava na idade em que a energia física e mental se combinava com o carisma e a experiência. Era também visível que se aproximava da idade da sabedoria.

Nesse tempo, Portugal estava ainda a sair de um longo período de enclausuramento cultural e a macrobiótica foi a primeira tendência natural a largar amarras nesse novo mar fascinante, largo e fundo de liberdade e a descobrir novos mundo ao mundo cartesiano, quadrado, convencional no qual o país ainda vivia. Na verdade, não era só Portugal que estava assim fechado, mas a Europa também, apesar de menos do que nós. Foi esse o primeiro ano em que Michio fez uma ronda de seminários por vários países europeus, Portugal incluído, e esses seminários, repetidos nos anos seguintes, mudaram a macrobiótica como nós a conhecíamos neste Continente.

Nestas mais de três décadas estive com Michio quase todos os anos: em seminários em Lisboa, Porto, Florença, Bélgica, Boston e Miami; em aulas em Boston e nas montanhas do norte dos EUA; como seu assistente em consultas em vários lugares, mas principalmente em Boston durante mais de um ano. Com ele aprendi muito - e não só a parte técnica. De Michio eu e muitos outros herdámos a inspiração para, cada um à sua maneira, continuarmos e espalharmos a acção que ele iniciou muito antes de nós. Na realidade, a sua missão assumida tem sido preparar e apoiar um escol de militantes que vivam e promovam a macrobiótica. O que é que nós encontramos em Michio que nos incentiva a continuar o seu caminho? Cada um verá aspectos diferentes. Eu vou lembrar alguns que aprendi dele como lição de vida.

Sem horários, sem fins-de-semana, sem férias. A pouco e pouco, as aulas, as palestras, a divulgação, a escrita, a organização, não têm horários das 9 às 7, estendem-se pelos fins-de-semana e pelo ano todo. No prefácio do livro "Cura Natural Pela Macrobiótica" de Michio Kushi (ed. Jacinto Rosa Vieira, 1978) Aveline Kushi escreveu "Quando o Sr. Ohsawa morreu subitamente em 24 de Abril de 1966, a sua morte provocou uma reviravolta dramática nas nossas vidas. Desde aquela altura o meu marido pôs todos os seus esforços e energias na organização de conferências. Ele não se importava se chovia ou se nevava, dava conferências duas vezes por semana, e por vezes, várias vezes por semana. Quase que parecia que era como se ele desse as conferências para si próprio. Ele não se importava com o número de pessoas que as frequentava; ao princípio por vezes só vinham poucas pessoas. Ele continuava com o espírito altruísta de um samurai que se aperfeiçoa na arte de manejar a espada." A vida é uma missão a tempo inteiro.

Somos humanos, não somos perfeitos. Num dos primeiros seminários em Lisboa, já no tempo das perguntas e respostas, eu perguntei-lhe: "porque é que há tantos macrobióticos que fumam?" Nessa altura eu ainda fumava, não era uma crítica que eu estava a fazer, mas porque tantos de nós fumávamos? Michio respondeu: "há muitos macrobióticos que fumam porque eu fumo e eu fumo porque Ohsawa fumava". Para além da simplicidade zen da resposta, foi clara a atitude de assumir em público um aspecto controverso e, para o meio naturista, condenável. Em Boston ia com muita frequência a casa de Michio e Aveline e era comum alguns dos seus problemas familiares, de saúde ou outros serem falados. Ali não havia a hipocrisia do mestre que esconde os seus lados negativos e se apresenta como perfeito.

É o simples que é o importante. Todos os anos, antes de cada seminário, se ouve alguém dizer que "não vai porque já ouviu aquilo". Quem o diz não percebeu que o mais importante, em qualquer ensinamento, é o básico, o simples. É nos pilares, nos alicerces, que tudo o mais assenta - e nunca é demais repeti-lo. O que acontece o mais das vezes é que nos fascina saber o complicado sem integrarmos no nosso dia-a-dia o simples. A vida é clara e simples, nós é que a complicamos. Em relação à macrobiótica (como em relação a muitas escolas de pensamento e acção), é comum as pessoas perderem-se em labirintos porque não integraram a estrutura do centro, de onde tudo deriva. Nas aulas, sejam elas para principiantes, as avançadas ou para professores, Michio começa sempre pela raiz. Seja a dieta, seja o diagnóstico, seja a compreensão da doença, seja o desenvolvimento do ser humano, qualquer assunto para ser compreendido necessita de ser olhado de uma perspectiva global e integrada - que deriva de uma visão lavada. E essa está na primeira hora das aulas do Michio.

Aveline Kushi

A década de oitenta foi dura para com Aveline. Defrontou-a com provações que nem ela nem nenhum de nós esperaria. Foi então, com Aveline, que muitos dos que com ela privavam aprenderam a agradecer. A qualquer um, em qualquer circunstância, Aveline agradecia. Juntava as mãos e agradecia. Poderia parecer que não vinha a propósito, mas agradecia. À vida, às dificuldades, ao sofrimento. À alegria, ao prazer, ao equilíbrio, aos amigos, à família. Às desilusões, à esperança. Ao Universo. Penso que essa marca ficou em todos nós. Recordo Aveline e a sua atitude todos os dias.

 

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