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Medicinas Não Convencionais - Fitoterapia
Escrito por Miguel Boieiro   
Domingo, 11 Novembro 2012 22:45

Cogumelos Sinérgicos

Fui de novo atraído pelo fascinante reino dos fungos. É um mundo misterioso repleto de sensações, de lógicas inabituais no nosso dia-a-dia, de aventuras e de perigos. Constitui um verdadeiro desafio para quem incessantemente busca acrescidos saberes para se situar harmoniosamente nestes tempos de aguda crise.

Com o atraente título de “Oficina Cogumelo Sinérgico” e através de dois formadores especializados na matéria (João Oliveira e Pedro Prata), estive numa ação educativa que contou com 15 micófilos, ou seja, de apaixonados por cogumelos.

Não conseguirei relatar, com o rigor necessário, o que tentei apreender, até porque o assunto reveste-se de alguma complexidade. Assim, apenas mencionarei alguns tópicos que registei com o intuito de despertar curiosidades e arregimentar novos militantes para a micofilia.

1 - O local onde a iniciativa decorreu era (e é) deveras adequado para quem preza os valores do ambiente saudável e da natureza e rejeita os artificialismos do consumismo exagerado que apenas busca o dinheiro a qualquer preço, sem o mínimo rebuço. Assim, esta ação constituiu também uma lição de cidadania e da arte de bem viver. Durante três dias (2, 3 e 4/11/2004) lá dormimos, tomámos refeições saborosíssimas, (totalmente vegetarianas) e convivemos com gente simpática que comunga ideais comuns sem teias ou preconceitos. Excelente!

2 – O mundo dos fungos é vastíssimo. Julga-se que atinge pelo menos 300 mil espécies, havendo por volta de 30 mil macro fungos, a que  chamamos cogumelos. Estes constituem as frutificações de algumas espécies que surgem principalmente no outono e na primavera. O que importa salientar, à partida, é que os fungos são seres vivos que, como as plantas, os animais e as pessoas, precisam de se alimentar e reproduzir-se. Assumem diferentes categorias e incorporam proteínas, vitaminas e sais minerais interessantes para a alimentação humana, mas alguns integram também substâncias nocivas que podem ser tóxicas e mesmo mortais. Digamos que todos os cogumelos se podem comer …mas alguns…só se comem uma vez (veja-se o triste destino daqueles que, por imperdoável descuido, ingeriram a Amanita phaloides).

3 - Os cogumelos formam uma rede debaixo da terra, bastante intrincada, por uma espécie de raízes que transportam nutrientes e informações vitais para a reprodução que, grosso modo, assentam nos mesmos princípios da “internet”. De passagem, diga-se que o maior ser vivo que se achou até hoje no mundo foi um fungo encontrado nos Estados Unidos (tinha que ser) com quilómetros de extensão.

4 – Um dos mais famosos especialistas micológicos (um verdadeiro guru) é o americano Paul Stamets, com vários volumes publicados de que destacamos: The Mushroom Cultivator –A Practical Guide to Growing Mushrooms at Home  e Mycelium Running – How Mushrooms can help salve the World. (Um pequeno aparte para referir que notei que este livros americanos foram ambos impressos na China. Efeitos da globalização, ou mais do que isso?)

5 – Os esporos, que constituem a base da reprodução, são transportados pelo vento (ou pela água) e ao encontrarem condições propícias formam a primeira hifa. Se as condições persistirem, a hifa desenvolve-se até chegar ao micélio que será o organismo completo. Vulgarmente, mas nem sempre, os cogumelos possuem um chapéu, um caule e, por vezes rizomorfos que são uma espécie de raízes que brotam na parte inferior do caule. Este pode ter anel e/ou véu. Há uma multiplicidade de diferenças que caracterizam os cogumelos e só a observação atenta e muito pormenorizada pode ajudar a identificá-los. Para os micófagos (os comedores de cogumelos) a premissa base é usar o princípio da precaução. Se subsistir a mais pequenina dúvida na identificação, o cogumelo deve ser liminarmente rejeitado.

6 – Pacientemente, os nossos simpáticos formadores resumiram o tema “Estratégia de Vida dos Cogumelos” em três categorias:

SIMBIÓTICOS – Vivem em comum com quase todas as plantas (apenas as brássicas não estabelecem relações microrrízicas) e beneficiam-se mutuamente. Partilham os alimentos através das raízes que intercomunicam entre si. Os cogumelos fornecem minerais para as plantas e em contrapartida, recebem destas os açúcares de que necessitam. Exemplos: lactários, boletos, trufas, amanitas

DECOMPOSITORES – Alimentam-se de matéria vegetal já morta, como folhas, troncos, palha, borras de café, cordéis de sisal, sementes de gramíneas, estrumes curtidos, etc. Exemplos: shitakes, pleurotes, macrolepiotas, agáricos, coprinos

PARASÍTICOS – Comem tecidos vivos. Consomem o seu hospedeiro que infetam e acabam por matar. Exemplos: Agrocybe aergerita, Inonotus oblíquos

Apenas os decompositores e os parasíticos podem ser domesticados, isto é, controlados na sua alimentação e reprodução pelo Homem. Tal explica a razão por que falhou a inoculação de boletos numa parte do montado do Alto do Pina (Poceirão). Em três anos, apenas colhemos quatro boletos. A conclusão é que fomos vítimas de uma fraude porque os boletos pertencem à categoria dos cogumelos simbióticos e esses não são controláveis.

7 – Foram efetuadas várias experiências laboratoriais que não irei pormenorizar por manifesta incapacidade pois “não vá o sapateiro além da chinela!”. Direi apenas que se efetuou um “print” de esporos de um macrolepiota procera, os quais poderão manter vitalidade durante alguns anos; que foram retirados pedacinhos de cogumelo para serem conservados em meio seco em “placas petri” ou em meio líquido. Os inóculos ou “spawns”, assim obtidos, são os vetores da multiplicação; a reprodução pode dar-se em diversos substratos, como: cereais, borras de café, serradura, troncos de árvores, etc., tudo completamente humedecido e desinfetado.

 Para o meio líquido de desenvolvimento do inóculo foi-nos dada uma fórmula que engloba 20g de malte, 20g de agar-agar, 2g de levedura de cerveja, dissolvidos num litro de água destilada. O malte fornece os açúcares, a levedura é um fungo unicelular que dá os oligoelementos e o agar-agar fornece a estrutura e a proteína. Todas estas operações laboratoriais exigem grande rigor, uma desinfeção absoluta feita com álcool puro, fervuras em banho-maria e o auxílio de calor produzido por quatro velas de cera dispostas em quadrilátero na respetiva mesa de apoio.

 E mais não direi para não me baralhar, nem baralhar os leitores.

8 – Todos os participantes trouxeram para as suas casas pequenos troncos de carvalho com perfurações onde foram introduzidos inóculos de shitakes e pleurotes. Passados que sejam nove meses em condições propícias de humidade e temperatura (de 5º a 35º, sendo a ideal a de 22 graus), vamos ver o que aparece!

8 – Finalmente, há que referir a saída de campo, a qual foi altamente proveitosa. Na quinta do Sr. António Gaspar pudemos colher lactarius, agaricus, coprinos comatus, trametes versicolores (medicinais) e sobretudo, uma grande quantidade de macrolepiotas procera que deu para confecionar a base de duas saborosas refeições.

 

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