Eventos

Entrada Artigos Fitoterapia Flora da Ilha de Malta
Flora da Ilha de Malta Versão para impressão Enviar por E-mail
Medicinas Não Convencionais - Fitoterapia
Escrito por Miguel Boieiro   
Sexta, 22 Maio 2009 14:46

Malta – Terra de pedras e alcaparras

Malta é hoje um pequeno estado integrado na União Europeia, com apenas 316 km2 (2,5 vezes o concelho de Alcochete). Todavia, a sua população é de 400 mil habitantes, acrescendo outro tanto de população flutuante (turistas), o que configura uma das mais altas densidades demográficas do mundo.

Fundamentalmente são duas ilhas que compõem este país, situado no centro do Mediterrâneo – Malta, propriamente dita, e Gozo. Tem mais uns rochedos emersos e uma ampla zona marítima exclusiva.

A descrição deste minúsculo estado poderia obedecer a um roteiro histórico. Malta possui testemunhos civilizacionais desde há 7 mil anos e foi gerida por fenícios, cartagineses, gregos, romanos, bizantinos, árabes, normandos, aragoneses, espanhóis, vaticanos (através de ordens militares religiosas), franceses e ingleses e, todos eles, deixaram marcas profundas.

Ou então, poderíamos optar por uma análise linguística, estudando a língua maltesa que parece ser uma mistura de árabe egípcio e de idiomas itálicos.

Também não seria nada despiciendo, investigar os singulares aspectos geográficos e a origem geológica destes territórios alcalinos, constituídos basicamente por um carbonato de cálcio macio que os ingleses chamam de limestone, ideal para construir robustas edificações.

Outra vertente importante seria a do aspecto religioso. Quem já viajou pelos caminhos de São Paulo em terras gregas e turcas, deveria vir a Malta para completar a digressão. Consta-se que o apóstolo, ao dirigir-se a Roma, naufragou junto de duas pequenas ilhotas que hoje se chamam ilhas de São Paulo e que, curiosamente, ficavam em frente do “resort” onde nos encontrávamos hospedados. Diz a tradição e contam os actos dos apóstolos que o santo permaneceu três meses em Malta, fazendo milagres e implementando o cristianismo que hoje é flagrante nesta região predominantemente católica. Nunca vimos uma nação com tantas e tão magnificentes igrejas e capelas. De resto, esta terra paulina é-o também pela toponímia: baía de São Paulo, ilhas de São Paulo, catacumbas de São Paulo, gruta de São Paulo, igrejas de São Paulo, hotéis de São Paulo, etc.

A arte constituiria outro roteiro possível, desde a curiosa arte megalítica até à sumptuosa arquitectura da ordem militar que governou Malta por mais de dois séculos. De referir que os grãos-mestres eram de várias nacionalidades: italianos, espanhóis, franceses, alemães, portugueses. Não se espantem! A presença portuguesa é notada especialmente pelos palácios e monumentos erigidos no tempo do grão-mestre António Manuel de Vilhena, com destaque para o teatro de ópera Manoel, em Valletta, o palácio da Medina de Rabat e a fortaleza Manoel.

Um hipotético estudo da evolução militar teria sempre que contar com Malta, terra que ao longo das eras foi cenário das mais importantes estratégias de guerra ao nível regional e mundial. Com efeito, Malta pouco produz sob o ponto de vista agrícola ou industrial. A sua produção principal tem sido a guerra e o protagonismo nos conflitos, sob o mando das sucessivas potências.

Enfim, nessa escassa semana que permanecemos neste território charneira entre a Europa e a África, preferi dar a primazia à contemplação da flora, consciente de que ela abre também importantes pistas para a compreensão do universo.

Aqui a vegetação é a típica dos climas de verão seco, invernos temperados e solos de pH elevado. Encontram-se por todo o lado, em estado selvagem, os funchos, as malvas de flor roxa (que mais parecem arbustos, de tão altas), os crisântemos amarelos (mas não os coroados de branco e amarelo, como temos em Portugal), as calêndulas, as centáureas, os senécios, os cardos, as borragens, os rícinos, os acantos, as canas-freixas, …

Junto aos inúmeros fortes erigidos por toda a costa, bordejada por pequenas enseadas, golfos e baías, podemos ver densas moitas de pepino-de-são-gregório (Ecballium elaterium), confirmando, mais uma vez, que esta planta adora viver ao pé dos castelos e fortalezas. Notámos, no entanto, que estes pepinos-de-são-gregório ostentam frutos bem maiores dos que existem entre nós. Mas o que mais me surpreendeu foi encontrar imensas alcaparras (Capparis rupestris) providas de lindas flores. Tive oportunidade de colher alguns botões florais a que juntei vinagre, a fim de confeccionar o célebre aperitivo (hei de redigir um texto específico sobre esta curiosíssima planta mediterrânica).

No litoral abundam as Tamarix africana (tamargueiras), as Agave americana (piteiras), as halófitas, com destaque para as salicórnias e diversas plantas suculentas que sobrevivem com escassa água doce.

Os malteses utilizam, obviamente, as pedras, que dispõem em abundância, para separar as suas pequenas courelas de solo arável, mas em diversas propriedades, colocam também a Opuntia ficus-indica (figueiras-da-índia). Os respectivos frutos são aqui muito valorizados, servindo para preparar um apreciado licor rosado. Os campos cultivados, para além de algumas vinhas de reduzida dimensão, produzem essencialmente hortícolas: batatas, cebolas, favas, cenouras, ervilhas, couves, alcachofras. Nas imediações da cidade de Mosta são visíveis alguns cereais: trigo e aveia.

Tem fama o Festival do Morango (Festa Frawli) que se realiza todos os anos, no mês de Abril, em Mgarr (atenção: o “g” tem uma pontinha em cima, pelo que se lê “mejar”). Os morangos, criados no, provavelmente, mais fértil vale da ilha, possuem aqui um sabor especial. O festival inclui a venda dos frutos frescos, compotas, bolos, batidos e gelados em que o morango surge como principal ingrediente. Das guloseimas locais, anote-se a doçaria com figos, as compotas de alfarroba e os “nogats” de amêndoa.

No que respeita ao arvoredo, que é reduzido, existem oliveiras, figueiras, alfarrobeiras, amendoeiras, pinheiros de aleppo (Pinus halepensis), Quercus ilex e uma cupressácea endémica, protegida por lei, que é a Tetraclinis articulata. Com preocupação, nota-se o alastramento de eucaliptos, sempre inconvenientes em solos com pouca água e de ailantos (Ailanthus altissima), os quais proliferam muito rapidamente, invadindo áreas protegidas e ficando completamente fora de controlo.

Falando em áreas protegidas, não podemos deixar de referir que visitámos, ainda que por breve tempo, a região da Costa Dourada, onde se encontra Ghajn Tuffieha, cuja área está incluída na Rede Natura 2000. Aqui encontram-se algumas plantas raras, como asphodelus, espartas e fragonias.

Na pequena ilha de Gozo, com maior quantidade de terreno argiloso, pudemos observar uma vegetação mais desenvolvida e terrenos mais propícios para a agricultura. Anotámos bananeiras e duas subespécies herbáceas endémicas, avistadas na citadela de Victoria: “Linaria pseudolaxiflora” e “Chamomilla aurea”. Verificámos também que as “bocas de lobo” (Antirrhinum siculum) são de cor branca raiada de amarelo, enquanto na ilha de Malta, elas (Antirrhinum tortuosum) são predominantemente de cor vermelha ou roxa.

Não poderia terminar esta leve dissertação botânica sem referir a visita a San Anton Gardens, talvez o mais importante jardim botânico de Malta. Fica agregado ao palácio presidencial e foi implantado em 1623 pelo grão-mestre francês, Antoine de Paule. Era domingo e havia inusitada multidão passeando no jardim. Mais tarde apercebi-me de que as pessoas tinham ido, sobretudo, apreciar a exposição e venda de galináceos e coelhos, ciclicamente apresentados naquele aprazível espaço. De árvores, saliento o bem cuidado laranjal (melhor dizendo, “citrinal”, já que havia também outros citrinos) e espécies ornamentais como a Sophora japonica, a Tegoma smifri, a Robinia sasque rouge, a Livistonia chinensis, a Tipuana tipu, a Ceiba speciosa, a Latania barbonica e demais espécies de palmeiras e Ficus tropicais. Num cantinho, em razoável estado vegetativo, encontrei um exemplar do nosso Quercus suber (sobreiro), árvore que ali e na maior parte do mundo, constitui uma raridade botânica.

E eis, em larguíssimos traços, o que mais me sensibilizou nestas terras mediterrânicas de pedras e alcaparras.

Maio de 2009

Miguel Boieiro

atualizado em Sexta, 22 Maio 2009 15:37
 

Subscreva Newsletter

Medicinas Não Convencionais


Receber em HTML?