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Medicinas Não Convencionais -
Fitoterapia
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Escrito por Miguel Boieiro
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Quarta, 20 Agosto 2008 23:20 |
Aspectos da flora da Madeira Acompanhando os delegados de
Alcochete ao XI Congresso da ANAFRE (Associação Nacional de Freguesias) que se
realizou no Funchal em 28 e 29 de Março último, tive a grata oportunidade de
revisitar a encantadora ilha da Madeira.
Foi deveras interessante comparar
o que agora me foi dado observar, com o que vi nas duas visitas anteriores, a
primeira há 25 anos e a segunda, algo fugaz, há uma década.
O que achei mais positivo foi o
extraordinário incremento de infra-estruturas, especialmente as que se referem
às vias de comunicação. Hoje é muito mais fácil percorrer este território super
montanhoso. As distâncias ficaram substancialmente encurtadas face a um sistema
de vias rápidas, englobando centenas de viadutos e túneis, alguns com vários
quilómetros de extensão. Notáveis são também os equipamentos desportivos,
museológicos e sobretudo, turísticos. Não há dúvida que, nos últimos anos,
foram aqui investidas grandes somas e, em consequência, o número de visitantes
dilatou-se. O turismo é, de longe, a principal actividade económica da região.
Refiro, como aspectos menos
positivos, o grande aumento de viaturas a circular e a falta de estacionamentos,
mormente, na cidade do Funchal.
Mas é a botânica a especialidade
que mais me cativa neste espaço macaronésico e por isso, tentei aproveitar o máximo,
observando a vegetação, visitando cuidados jardins e tomando notas no meu
diário de campo. Só tenho pena de me ter minguado o tempo para as
indispensáveis caminhadas na espectacular floresta laurissilva que, como se
sabe, é património mundial classificado pela sua biodiversidade florística,
endemismos e grande beleza paisagística.
Na Região Autónoma da Madeira
existem mais de 1200 espécies botânicas (fora os cruzamentos híbridos), sendo
123 endémicas do território e 69 endémicas da Macaronésia, classificação
bio-geográfica que engloba os arquipélagos das Canárias, dos Açores e de Cabo
Verde. Esta flora exuberante e diversificada, resultado de uma privilegiada
situação geográfica, relevo acentuado, constituição química do solo e amenidade
climática ocasionada pela corrente do golfo, constitui uma relíquia do período
terciário. Há aqui espécies de quase todo o mundo, incluindo plantas que
existiam nas floras primitivas europeias e africanas e que se extinguiram por
efeito das glaciações e de sucessivas alterações climáticas. Por outro lado, o
isolamento do território, no meio do Atlântico, propiciou especializações de
processos evolutivos que maturaram durante milénios.
O interesse científico da flora
madeirense e a espantosa sociologia florística que, a cada passo, se depara,
incute em todos os amantes da botânica uma sensação de euforia e paradoxalmente,
de contido respeito.
Como é bem de ver, não se pode
transmitir em poucas palavras o que se apreende e se sente numa digressão tão
apaixonante. Apenas irei destacar, sem rigores científicos (porque não vem ao
caso, nem para tal possuo conhecimentos), alguns aspectos das visitas locais
que efectuámos, tentando estimular a curiosidade de futuros visitantes.
Jardim Botânico da Madeira
É, sem dúvida, um dos mais
interessantes jardins temáticos do mundo, pela sua grande diversidade e beleza.
Ocupa uma área de oito hectares muito bem aproveitados, que acolhe cerca de
quatrocentos milhares de visitantes por ano. Trata-se de um autêntico
mostruário natural da flora mundial, porque só uma ínfima parte se encontra em estufas. Realço as secções
que mais me impressionaram:
Plantas indígenas
Ficaram-nos na retina os vistosos massarocos (Echium candicans), a urze-molar
(Erica arborea), os gerâneos (Geranium maderense, o robusto til (Ocotea
foetens), o vinhático (Persea indica), o barbuzano (Apollonias barbujana) e as
demais lauriáceas.
Arboreto
Árvores de todo o planeta com
porte impressionante.
Suculentas
Cactos, aloés, eufórbias e
companhia. Recordo, em particular, aquele arbusto espinhoso de flores vermelhas
que dá pelo nome popular de "mira-mira-não-me-toques" (Euphorbia millii).
Cicadales
Espantosa colecção de cicas,
plantas gimnospérmicas arcaicas surgidas há 200 milhões de anos.
Topiária
Árvores e arbustos podados,
formando esculturas de animais e objectos.
Jardins coreografados
Engenhosa montagem geométrica com
desenhos proporcionados por plantas de várias cores.
Plantas agro-industriais
Tintureiras, fibrosas, oleosas e
todas as outras plantas que facultam saborosos alimentos. Frutas já conhecidas
mas também exóticas, como a jabuticaba, a sapota, a carambola, o tamarindo, a
macadamia, a fruta-pão, o mangostão, o araçá, a pitanga.
Apaixonei-me deveras pelas
pitangueiras ("Eugenia uniflora" da família das mirtáceas) e seus frutinhos
alaranjados. Quando abandonei o Jardim, verifiquei que muitas vivendas tinham destas
árvores debruçadas para o exterior e fui colhendo e comendo as deliciosas
bagas, enquanto descia.
Aproveito para recordar o curioso
texto que recolhi, resumindo o percurso tormentoso do linho que "foi semeado,
arrancado, ripado, curtido, secado, fiado, ensarilhado, meado, cozido, corado,
dobado, novelado, urdido e tecido".
Plantas aromáticas e medicinais
Constituem uma autêntica perdição
para quem gosta destas coisas. Todavia, os nomes populares são, por vezes, bem
diferentes dos das plantas similares que existem no continente, o que pode
criar confusões.
Muito apreciadas são as
macelinhas vendidas aos molhinhos no Mercado do Funchal.
Em Santana, depois de bem almoçados,
a dona do restaurante brindou-nos com anonas e troços de cana-doce para chupar
e conduziu-nos depois a uma produção artesanal de aguardente de cana. Lá,
provámos uma especialidade, quase milagrosa, aplicável para todas as maleitas -
uma bebida confeccionada com aguardente de cana, mel de abelhas e um infuso de
trinta plantas medicinais.
Quando atravessámos o Paul da
Serra, vimos, no meio dos omnipresentes agapantos que ladeiam as estradas,
vários cartazes a anunciar o azeite-de-louro, extraído da baga da "Laurus
azorica". Parece que é remédio eficaz para o reumatismo, a má circulação, os
males de estômago, da garganta e do fígado. Tem até fama nos tratamentos da
gangrena e do tétano.
Jardim Palheiro Ferreiro
Talvez ainda mais belo que o Botânico,
este paradisíaco (e caro) jardim privado, extasia-nos pela profusão de belas
flores. Umas são oriundas da província do Cabo (África do Sul), outras da Ásia,
outras da América tropical, em constante competição. As cameleiras são
omnipresentes nas agradáveis veredas que se estendem nesta propriedade, situada
a 500 metros
acima do nível do mar.
Jardim Orquídea
Trata-se de um admirável cultivo
especializado, pertencente a uma empresa austríaca, fundada nos tempos do
faustoso império austro-húngaro.
A visita deste espaço constitui
um exercício de aprimoramento dos sentidos e um verdadeiro bálsamo para o
espírito. Saímos daqui bem dispostos e em paz com o nosso íntimo e com o mundo.
Afinal, a beleza tem esse condão maravilhoso.
O jardim é dedicado aos
especialistas das orquidáceas e contém um manancial de espécies de todos os
tamanhos, feitios e cores. Só visto!
É também um local privilegiado
para se aprender todo o processo de cultivo e desenvolvimento das plantas mais
sofisticadas do mundo. Anote-se que algumas necessitam de doze anos para
produzirem a primeira flor.
Muito mais haveria que ver e
descrever nesta ilha em que 75% da sua superfície é área protegida, sendo uma
referência mundial para biólogos e amantes da natureza. Saibam os seus naturais
e visitantes preservar o que de bom existe e assim transmitir aos vindouros um
legado assaz precioso.
Miguel Boieiro
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Actualizado em Terça, 26 Agosto 2008 16:34 |
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