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Medicinas Não Convencionais -
Fitoterapia
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Escrito por Miguel Boieiro
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Quarta, 20 Agosto 2008 23:18 |
Tabaco Há meses abordei o padre Carlos
Russo, um fumador inveterado, dizendo meio a brincar, que ele não deveria fumar
na casa de Deus. Ao que o sacerdote respondeu que, na igreja, a ASAE não se
atreveria a entrar. Antitabagista militante que me orgulho de ser, e ele,
leitor assíduo das minhas croniquetas sobre ervas, prosseguimos depois a
conversação que evoluiu para a hipótese de também se escrever algo sobre essa
temível (ou adorada) droga.
A "Nicotiana tabacum L" começou
por ser "erva-santa", bom remédio contra a enxaqueca. "Tomava-se o pó de folhas
em pitada. Não
tardou a constituir-se em vício que evolucionou para o fumo e logo mereceu a
censura das autoridades civis e religiosas. O papa Urbano VIII excomungou os
que a ele se entregassem. De nada valeu e em breve se generalizou o hábito de
fumar."
Assim começa a descrição no "Manual
de Medicina Doméstica" do Dr. Samuel Maia, obra com cerca de mil páginas,
editada nos anos trinta, que comprei, há duas semanas, na feira de livros
antigos do Chiado, por 2,50 euros.
Contudo, na "História das Plantas
Medicinaes Portuguezas" de Manuel dos Santos Costa, editada em 1899, que
consultei na biblioteca da Sociedade Portuguesa de Naturalogia, respiguei mais
alguns detalhes:
Trata-se de uma solanácea anual,
proveniente da América tropical, que pode atingir dois metros de altura, e se
encontra, toda ela, coberta de pelos viscosos. Os caules apresentam-se erectos,
robustos, cilíndricos e ramosos. As folhas são alternas, sésseis, ovais ou
lanceoladas-ponteagudas, inteiras, pegajosas, com nervuras muito salientes na
página inferior e de cor verde mais carregado na página superior, de cheiro
fraco e sabor levemente picante, amargo e nauseoso. As flores são grandes, em
trompeta, rosadas, munidas de brácteas dispostas numa espécie de panícula na
extremidade dos ramos, tendo cálice tubuloso, esverdeado. Finalmente, o fruto
forma uma cápsula ovóide, encerrando numerosíssimas sementes muito pequenas,
rugosas, irregularmente arredondadas.
Na composição química do tabaco
encontra-se: nicotina, nicocianina, princípios corantes, albumina, glúten,
amido, ácido málico, potássio, cálcio, magnésio e silício.
A nicotina é um potente
alcalóide, veneno violento que entra no organismo, não só por inalação do fumo,
mas também através da pele. Diz-se que 40
a 60mg de nicotina pura é, à partida, a dose mortal para
um adulto. O tabaco, tomado internamente, debilita a memória, diminui o olfacto
e produz náuseas, indisposição, acção diurética e por vezes laxativa, vómitos,
fraqueza dos membros e da vista, peso na cabeça, vertigens, pulso fraco,
síncopes, convulsões, calafrios, ... e finalmente, a morte. Igualmente se
encontram outros alcalóides, como o ácido prússico, de cheiro agradável, mas
também perigoso.
Curiosamente, apontam-se como contravenenos,
o chá de canela e as bebidas alcoólicas.
A planta possui propriedades
irritantes, purgativas e narcóticas, tendo sido trazida para a Europa com fins
meramente curativos, por Jean Nicot, donde derivou o seu nome científico.
Entre as aplicações fitoterápicas
do tabaco, registam-se as que se seguem:
Reumatismo e gota - cataplasma das folhas frescas sobre a parte
dolorosa;
Sarna e piolhos - Cozimento de 180 g/1 l de água (se a pele estiver
ferida, não aplicar)
Secreção da saliva, dor de dentes, inflamação das gengivas -
mastigação das folhas.
Asma, hidropisia, epilepsia e tétano - Infusão das folhas (remédio
antigo que hoje já ninguém usa, pois, por vezes, não se morria da doença, mas
da cura)
Do tabaco pode extrair-se,
através de complexos processos químicos, a vitamina PP (nicotilamida).
Finalmente, recordo uma das
minhas aplicações favoritas. Quando costumava passar entre Coruche e Mora,
região onde se plantava tabaco (hoje, bastante menos), parava o carro e colhia
uma meia dúzia de folhas. Depois, secava-as e colocava-as num frasco destapado
no armário dos "chás". O tabaco era o protector das outras plantas, pois
resultava muito eficaz para afugentar ácaros e demais insectos nocivos. Aliás,
é muito vantajoso tê-lo nos jardins (o tio Domingos chegou a plantá-lo no largo
de S. João, mas poucas pessoas o conheciam), ou nos terrenos de produção
biológica.
E isto é para que não me acusem
de dizer sempre muito mal do tabaco. Ele, usado criteriosamente, pode ser
bastante útil!
Miguel Boieiro
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Actualizado em Terça, 26 Agosto 2008 16:35 |
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