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Medicinas Não Convencionais - Corpo Teórico
Escrito por Carlos Ventura   
Quarta, 02 Julho 2008 20:26

2007 março

URGÊNCIAS VERSUS DOENÇA CRÓNICA

É certo e sabido que as séries televisivas passadas em meio hospitalar têm que estar centradas nas urgências - o grande drama da vida e da morte em confronto  É assim desde o velhinho dr. Kildare, série de há meio século protagonizada por Roger More antes de ser James Bond (com ordem para matar versus ordem para curar, mas sempre conquistador e penteadíssimo) até ao actual, bizarro e noctívago dr. House. As urgências são por definição situações limite, em que um gesto pode salvar ou condenar vidas, em que o sofrimento está patente e o apelo à ajuda é constante e inevitável. Quem a elas  já recorreu, por necessidade própria ou como acompanhante, sabe bem que serviços de urgência são indispensáveis e oxalá funcionem cada vez melhor. Mas a vocação da saúde natural não é a de actuar nas urgências. Aliás, essa é uma das situações que cristaliza as diferenças de fundo entre a saúde natural clássica (na qual se incluem a naturopatia clássica, a fitoterapia naturopática, a macrobiótica, a medicina tradicional chinesa, entre outros sistemas) e a medicina alopática. E é importante perceber a razão dessas diferenças.

A- As urgências lidam com o paciente numa situação de dependência em relação ao corpo médico. Pelo contrário, a saúde natural clássica faz do cliente um parceiro assumido do processo de tratamento ou de prevenção. Desde a primeira consulta, a função do naturólogo deve ser partilhar de forma acessível com o cliente a interpretação que está a ser feita do caso, o prognóstico de evolução e de que constará o plano de tratamento. Deve ser também claro que é o próprio indivíduo o agente primeiro e activo da sua recuperação, apoiado profissionalmente pelo naturólogo. Desde há alguns anos, a medicina ufana-se de que ao paciente já não é imposto o tratamento, porque actualmente há sempre um consentimento informado para que ele lhe seja administrado. Pois bem, isso para a saúde natural clássica não chega, porque para ela o cliente não é um depósito de medicação ou intervenções. Na saúde natural clássica, muito mais do que consentimento informado (isso é, obviamente, o mínimo exigível numa sociedade livre e num Estado de Direito), deve existir a participação informada. É compreensível que isto não seja possível em grande parte dos casos de urgência, mas nas outras situações deveria ser a prática corrente.

B- A medicina mágica, pré-hipocrática, é caracterizada por três pressupostos: quando, onde, quem. Explico melhor. Quando: certa magia é mais propícia se efectuada em determinada altura (por exemplo, na lua cheia, ou à meia-noite, ou ao amanhecer, etc.). Onde: certa magia é mais propícia se efectuada em determinado local sagrado ou propiciatório (em certo altar ou lugar de culto, no pico de certa montanha, em certa gruta, etc.). Quem: certa magia é mais propícia se efectuada por determinado personagem que possui os poderes requeridos (o feiticeiro, o oficiante, etc.).

Pelo contrário, a prática hipocrática baseia-se em três diferentes condições: o quê, como, porquê. O quê: refere-se à substância ingerida ou aplicada ou ao procedimento usado (cirurgia, manipulação, etc.). Como: refere-se ao modo como a substância ou procedimento se aplica (quantas vezes, frequência, técnica, via de administração, etc.). Porquê: procura explicar a razão pela qual o tratamento actua, articulando-o com um corpo teórico e coerente.

Estas diferenças são claríssimas, delimitam campos e posicionamentos. Acontece porém que cada vez mais o hospital recupera dois dos pressupostos da medicina mágica: onde e quem. A tecnologia avassaladora que submergiu a medicina condiciona a prática médica actual (e muito mais a do futuro). Ela só é capaz de ser exercida em meio hospitalar sofisticadamente equipado. O hospital transformou-se assim no templo onde os milagres se operam, onde os renascimentos acontecem - desde, é claro, que a energia eléctrica não falte e os aparelhos electrónicos e informáticos não falhem. O João Semana que por montes e vales diagnosticava e tratava qualquer problema com as suas mãos e uma pequena maleta (e, não esqueçamos, com humanidade, experiência e sabedoria) é agora uma curiosidade ultrapassada, do século passado. Quem: no grande templo hospitalar, o sacerdote oficia. É verdade que desde sempre o feiticeiro/médico/naturopata foi aureolado de poderes herméticos e superiores. Mas será saudável que dispamos essas roupagens ancestrais e laicizemos a função. O bom profissional de saúde é aquele que, baseado em estudo, trabalho e experiência consegue bons resultados no que faz. Se houver vocação e intuição, tanto melhor. Mas o estatuto de semi-deuses, esse sim, é bom que o deixemos para os livros de História.

C- Ao contrário portanto de actuar situações de urgências, a saúde natural clássica está principalmente vocacionada para trabalhar a prevenção e em situações tendencialmente ou assumidamente crónicas.

No próximo mês falarei da diferença entre naturopatia clássica e moderna.

 

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