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O Elo Perdido Entre Hipócrates e a Naturopatia Actual Versão para impressão Enviar por E-mail
Medicinas Não Convencionais - Corpo Teórico
Escrito por Carlos Ventura   
Quarta, 02 Julho 2008 19:12
in revista Natural BeijaFlor
2006 outubro

"TRATADO DA VIDA SÓBRIA", de Avise Cornaro

Hipócrates, expoente da Antiguidade Clássica, do século de ouro da Grécia Antiga e da filosofia (ou seja, do amor ao saber) grega é o pai da Naturopatia. Há dois mil e trezentos anos, ele lançou os alicerces do saber e da profissão nas suas vertentes deontológica e filosófica, da qual a capacidade metodológica também emerge.

Com a queda do império romano, o conhecimento dos clássicos ficou soterrado sob aquelas ruínas. Sem as traduções que, mil anos depois, os muçulmanos verteram para árabe, é possível que esses textos antigos nunca tivessem sido recuperados, já que a Europa se mantinha mergulhada na superstição e na religiosidade dogmática. 

Ao longo da Idade Média, o conhecimento das plantas medicinais foi preservado nos mosteiros (como, aliás, todo o conhecimento da época, já que o ensino, os livros e, em resumo, todos os aspectos da vida, estavam sob o controlo da Igreja, cujos membros eram pastores das almas mas também dos corpos). O saber popular das plantas medicinais, detido principalmente pelas mulheres, era cortado cerce, sendo elas perseguidas por bruxaria, acusadas e eventualmente queimadas na fogueira. Estes dois saberes (e será bom não esquecer que saber é poder), eram no fundo muito próximos - daí que o eclesiástico quisesse exterminar o popular. Havia no entanto diferenças: o eclesiástico era letrado e tinha acesso a um património escrito ao longo de séculos em toda a Europa na língua culta de então (o latim); o popular era analfabeto e os seus conhecimentos eram locais e passados de geração em geração dentro das comunidades rurais. Havia no entanto um grupo que conseguia ter uma visão exterior àquele círculo vicioso: os judeus. Excluídos pela religião e socialmente, continuaram a ter acesso (pelas traduções árabes, das quais eram vertidos para hebraico) aos textos clássicos, nomeadamente a Hipócrates. Daí que alguns dos maiores médicos na Europa do tempo fossem judeus.

Devido ao deserto de reflexão e teorização que atravessou a Idade Média, na Europa o tratamento era normalmente sintomático e imbuído de métodos abstrusos. Então quando é que esta situação mudou e uma nova mentalidade permitiu redescobrir o que fora encoberto por tanto tempo?

Nas espécies que se sucederam até ao homo sapiens sapiens fala-se de vez em quando em achados de elos perdidos, que se pensa serem mais uma pedra em pontes que atravessam milhões de anos. No que à saúde diz respeito, Alvise Cornaro é um "elo perdido" entre a Antiguidade Clássica e o século XIX.    

Nascido em 1482 ou 1484 e falecido em 1566, veneziano ilustre, a sua cidade era uma potência cosmopolita, comercial, marítima e financeira. Alvise Cornaro levou uma vida de excessos até aos quarenta anos, tendo ficado muito doente e sido desenganado pelos médicos. É então que decide mudanças radicais na sua vida, vivendo saudável e feliz até uma idade avançada, escrevendo até praticamente à sua morte textos traduzidos em várias línguas, que explicavam como, a partir do seu exemplo, a doença não é uma inevitabilidade.

Como é que Alvise Cornaro antecipa o que hoje conhecemos como naturopatia? Antes de mais, afirmando com convicção inabalável (muito maior do que hoje, porque agora mantemos sempre algum distanciamento de qualquer certeza absoluta, e também porque lidamos com um leque maior de circunstâncias patológicas) que é o que nós comemos que, mais que tudo, condiciona a nossa saúde: "sendo impossível na natureza que quem levar uma vida regrada e sóbria possa adoecer, ou morrer por morte natural antes de tempo; (...) quem leva vida regrada não pode adoecer, aliás raras vezes e por tão pouco tempo se encontra indisposto" (pág. 106). E continua, avançando com um argumento subversivo para a época: "porque o viver regradamente tira todas as causas do mal e, tiradas as causas, chega-se a tirar o efeito"(pág. 106). Ou seja, ele entronca no argumento que Hipócrates tinha estabelecido contra o a medicina mágica: "todas as doenças têm causas naturais". Este é também um princípio básico da saúde natural/naturismo, movimento nascido no século XIX: tendo as doenças causas, então se abolirmos as causas, manter-nos-emos saudáveis. Não se estranha portanto que ele afirme que o que seria normal é só morrermos aos 100 anos e os que nasceram com boa constituição podem chegar aos 120. Isto, claro, desde que vivamos segundo as regras da natureza. Em qualquer destes casos, o natural será morrer "por resolução" (pág. 99) e não de doença.

A obra de Alvise Cornaro não poderia ter nascido antes. Ele é um homem do Renascimento e as suas conclusões são fruto desse novo posicionamento, baseado na experiência e já não em dogmas inquestionáveis: "diz tal provérbio que o que sabe bem à boca faz bem a tudo. O que, fazendo essa experiência, verifiquei ser falso" (pág. 42). A responsabilidade da saúde e da doença é portanto assumida pelo indivíduo em vez de estar nas mãos de Deus (que, presume-se terá mais com que se ocupar do que andar a corrigir os disparates que cada um faz a si mesmo). A saúde passa a ser uma interacção entre o ser humano e a "mãe natureza" (pág. 88).

De caminho, preconiza, como a alimentação natural actual, que os cereais integrais são indispensáveis à saúde: "Ó vida (...) ages assim sabendo que o pão é o alimento mais próprio do homem, quando é acompanhado da vontade de comer" (pág.88).

(Tratado da Vida Sóbria, ed. Antígona, Lisboa 1999)

 

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